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Projeções para Congelados na América do Sul Divergem: de US$ 62B a US$ 310B em 2032

Múltiplos relatórios de mercado apresentam números conflitantes para o setor de alimentos congelados na América do Sul, criando um cenário de incerteza para o planejamento estratégico de varejistas e operadores logísticos.

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Juliana Costa
Editor
Projeções para Congelados na América do Sul Divergem: de US$ 62B a US$ 310B em 2032
Foto de Chang Duong

Análise: Discrepância de US$ 291 Bilhões em Projeções Exige Cautela no Planejamento de Frio

A análise de projeções recentes para o mercado de alimentos congelados na América do Sul revela uma notável e problemática falta de consenso entre as consultorias. Os números para o ano de 2032 variam de US$ 18,7 bilhões a US$ 309,8 bilhões, uma diferença de US$ 291,1 bilhões que impacta diretamente as decisões de investimento em infraestrutura de frio, gestão de sortimento no varejo e expansão de malhas de distribuição. A divergência não se limita aos valores absolutos; as taxas de crescimento anual composta (CAGR) projetadas também oscilam significativamente, entre 5,5% e 10,5%.

Para compradores de redes de supermercados, gestores de centros de distribuição e operadores de logística terceirizada (3PL), essa disparidade não é um mero detalhe acadêmico. Ela representa um risco calculado na alocação de capital. Dimensionar uma operação com base na projeção mais otimista, de US$ 309,8 bilhões, pode levar a uma capacidade ociosa dispendiosa e a um retorno sobre o investimento insatisfatório. Por outro lado, seguir o cenário mais conservador pode resultar na perda de participação de mercado para concorrentes mais agressivos, incapaz de atender a uma demanda crescente.

O que explica uma variação de 1.650% nas previsões?

A questão central reside na metodologia, no escopo e nas definições de cada estudo. Fatores como a inclusão ou exclusão de certas categorias de produtos (e.g., sorvetes, panificação congelada, pratos prontos), a definição geográfica de "América do Sul" versus "América Latina" e as diferentes bases de cálculo (valor no varejo, valor de fábrica) podem explicar parte da variação. Independentemente da fonte, o sinal unânime é de crescimento sustentado. A magnitude desse crescimento, no entanto, permanece um ponto de interrogação que exige uma análise mais profunda de cada cenário para a tomada de decisões informadas.

Cenário 1: Crescimento Sólido de 7,1% para US$ 62,4 Bilhões

Uma das projeções, da consultoria Mobility Foresights, aponta para um mercado sul-americano de alimentos congelados que deve crescer de US$ 38,5 bilhões em 2025 para US$ 62,4 bilhões até 2032. Este cálculo é baseado em uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 7,1% durante o período de previsão de 2026-2032. Este cenário representa uma visão de expansão robusta e, crucialmente, previsível.

O que US$ 23,9 bilhões em novo mercado significam?

Um crescimento absoluto de US$ 23,9 bilhões ao longo de sete anos, impulsionado por um CAGR de 7,1%, sinaliza uma demanda consistente que justifica investimentos incrementais e planejados na cadeia de frio. Não sugere uma disrupção que exija a reestruturação completa das operações, mas sim uma evolução constante. Para os distribuidores, isso se traduz no planejamento de uma expansão gradual da frota refrigerada e na modernização faseada de sistemas de gerenciamento de armazéns (WMS) para lidar com maior volume e complexidade de SKUs.

Implicações para a cadeia de suprimentos e o ponto de venda

Neste contexto, a alocação de capital pode ser mais metódica. Operadores logísticos podem focar em otimizar rotas e melhorar a eficiência energética de seus armazéns, em vez de construir novas instalações especulativamente. Para os varejistas, o crescimento de 7,1% sugere a necessidade de expandir o espaço de gôndola para congelados de forma proporcional ao crescimento geral da loja, além de otimizar a gestão de categorias para capturar esse avanço orgânico. A previsibilidade permite um planejamento de longo prazo mais seguro para contratos de fornecimento e desenvolvimento de produtos de marca própria.

Cenário 2: O Outlier de US$ 309,8 Bilhões com o Menor CAGR

Em forte contraste, um relatório da Data Insights Market projeta que o mesmo mercado sul-americano atingirá US$ 309,8 bilhões até 2032. Curiosamente, a taxa de crescimento associada a esta projeção é a menor entre as analisadas: 5,5% de CAGR a partir de um ano base de 2025.

O paradoxo de um CAGR menor e um valor final cinco vezes maior

A aparente contradição — uma taxa de crescimento mais lenta levando a um valor de mercado quase cinco vezes maior que o do Cenário 1 — só pode ser explicada por uma premissa: o valor de base de 2025 considerado por este estudo é substancialmente maior do que o de outras fontes. Uma análise matemática reversa indica que, para atingir US$ 309,8 bilhões em sete anos com um CAGR de 5,5%, o mercado em 2025 precisaria ser avaliado em aproximadamente US$ 212,5 bilhões. Este valor base é 450% maior que os US$ 38,5 bilhões usados pela Mobility Foresights.

Que mercado está sendo medido?

Sem a divulgação clara da metodologia ou do valor base, a projeção de US$ 309,8 bilhões se torna difícil de contextualizar para fins de planejamento operacional. A magnitude do número poderia implicar uma definição de mercado muito mais ampla, talvez incluindo o valor de serviços de alimentação (foodservice), equipamentos de refrigeração industrial, o mercado de logística de frio como um todo, ou até mesmo insumos agrícolas destinados à produção de congelados. Para uma empresa focada na venda de produtos acabados ao consumidor final, este número pode ser inflado e enganoso.

Cenário 3: Foco na América Latina com Crescimento Acelerado de 10,5%

Uma terceira análise, da 6wresearch, foca na América Latina e apresenta números mais contidos em valores absolutos, mas com a maior taxa de crescimento. O estudo avalia o mercado em US$ 9,4 bilhões em 2025, projetando uma chegada a US$ 18,7 bilhões até 2032. A força motriz aqui é um CAGR de 10,5% para o período de 2026-2032.

Menor em tamanho, maior em velocidade

Este cenário pinta um quadro de um mercado menos maduro, mas mais dinâmico. Um crescimento de dois dígitos tem implicações diretas para a agilidade da cadeia de suprimentos. Ele exige soluções logísticas mais flexíveis e escaláveis, capazes de responder rapidamente a picos de demanda e à entrada de novos players. A estratégia de investimento aqui se desloca de ativos fixos de longo prazo para tecnologias e parcerias que permitam escalar ou reduzir operações conforme a demanda flutua.

A distinção crítica entre escopo geográfico e de produto

A discrepância de valor absoluto (US$ 9,4 bilhões da 6wresearch vs. US$ 38,5 bilhões da Mobility Foresights para o mesmo ano base de 2025) reforça a importância de entender o escopo de cada relatório. O termo "América Latina" é geograficamente mais amplo que "América do Sul", incluindo México e América Central. O fato de uma área maior apresentar um valor de mercado menor sugere uma diferença metodológica fundamental, possivelmente medindo apenas um subconjunto de categorias de produtos ou utilizando o valor de fábrica (preço de venda do produtor) em vez do valor de varejo (preço pago pelo consumidor), que é tipicamente mais alto.

Conclusão: Como Navegar na Incerteza dos Dados para Alocar Capital

Para os profissionais da distribuição e do varejo, a conclusão prática não é escolher uma projeção para acreditar, mas sim reconhecer o padrão e construir estratégias flexíveis. Todas as fontes, apesar das enormes discrepâncias nos valores totais, concordam que o mercado de congelados na região crescerá de forma consistente na próxima década, com taxas anuais que variam entre um sólido 5,5% e um acelerado 10,5%. O crescimento não está em debate; sua velocidade e escala final, sim.

O direcionamento estratégico deve, portanto, focar na preparação para a expansão de forma modular. Uma abordagem prudente poderia envolver o uso das projeções mais conservadoras (CAGR de 5,5% a 7,1%) para justificar investimentos de capital de longo prazo e baixa flexibilidade, como a construção de novos centros de distribuição. Em paralelo, as projeções mais otimistas (CAGR de 10,5%) podem ser usadas para orientar decisões operacionais e mais flexíveis, como contratos de leasing de frotas, contratação de pessoal e investimentos em tecnologia de software (SaaS). A principal lição é que o planejamento para o crescimento é inegociável; a dúvida que define a estratégia reside na velocidade e na escala final desse avanço.