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Marcas Próprias na AL: Relatório Aponta Varejistas e Base de PMEs Fornecedoras

Um relatório de 2024 sobre marcas próprias na América Latina identifica os principais varejistas, enquanto dados paralelos sobre PMEs revelam uma base de fornecimento com significativa participação feminina, impactando as estratégias de sourcing para a categoria de congelados.

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Ricardo Almeida
Editor
Marcas Próprias na AL: Relatório Aponta Varejistas e Base de PMEs Fornecedoras
Foto de Somebody Elss

Seis Varejistas em Foco: O Que o Relatório de 2024 Revela Sobre Marcas Próprias

Um relatório com data de publicação de 22 de novembro de 2024 oferece uma análise detalhada do mercado de marcas próprias no setor de supermercados da América Latina e Caribe. O documento foca em estudos de caso de seis grandes operadores de varejo, mapeando as estratégias que definem a competição regional. Os grupos analisados incluem operações multinacionais como Carrefour, com suas filiais na Argentina e no Brasil, e Walmart, cobrindo os mercados do México e da América Central.

A análise se aprofunda ao incluir players de forte presença local e regional. Entre eles estão o Grupo Éxito na Colômbia, o Grupo La Anónima na Argentina e o Grupo Ta-Ta no Uruguai. A seleção desses seis grupos não é aleatória; ela demonstra que a penetração de marcas próprias é uma estratégia consolidada e em expansão em múltiplos mercados, independentemente da escala ou origem do capital do varejista. Este movimento força uma adaptação em toda a cadeia de valor.

As Implicações para a Cadeia de Suprimentos

A crescente aposta em marcas próprias tem consequências diretas para distribuidores e operadores logísticos. A tendência aponta para cadeias de suprimentos mais verticalizadas, onde os varejistas exercem maior controle sobre o desenvolvimento, a produção e a distribuição dos produtos. Isso exige que os parceiros logísticos se adaptem a requisitos específicos de manuseio, armazenamento e transporte, que frequentemente diferem dos produtos de marcas tradicionais. A necessidade de gerenciar um portfólio de fornecedores mais diversificado e, por vezes, geograficamente disperso, adiciona uma camada de complexidade operacional que demanda flexibilidade e capacidade de integração.

Quem Fornece? O Universo de 1,4 Milhão de PMEs na Base da Pirâmide

A expansão das marcas próprias levanta uma questão central para gerentes de categoria e diretores de compras: quem são os fabricantes por trás desses rótulos? Dados regionais indicam que a resposta está, em grande parte, no ecossistema de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Este segmento constitui uma parcela fundamental da base produtiva capaz de atender à demanda dos grandes varejistas.

Dentro desse universo, os números revelam um perfil demográfico específico. Existem entre 1,2 e 1,4 milhão de MPMEs na região que são propriedade de mulheres. Este contingente representa 40% do total de empresas desse porte, evidenciando um grupo empresarial significativo que atua como um motor para a produção local e, potencialmente, como um parceiro estratégico para os programas de marca própria dos supermercados. A escala dessa participação sugere que qualquer estratégia de sourcing que ignore as empresas lideradas por mulheres está negligenciando uma fatia substancial da capacidade produtiva instalada na região.

De Tegucigalpa à Prateleira: A Formalização de Fornecedores Locais

A importância estratégica dessa base de fornecedores é refletida em iniciativas concretas de capacitação. Um exemplo é o programa promovido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), BID Invest e a Câmara de Comércio e Indústrias de Tegucigalpa (CCIT) em Honduras. Uma notícia datada de 30 de julho de 2025 detalha a realização de workshops em Tegucigalpa, focados em treinar PMEs locais.

Para os compradores de grandes redes, essas ações sinalizam um movimento claro em direção à formalização e ao desenvolvimento de fornecedores. Programas como este visam mitigar riscos na cadeia de suprimentos, garantindo que os produtores locais possam atender aos padrões de qualidade, conformidade e volume exigidos pelo grande varejo. Ao mesmo tempo, abrem novas e competitivas oportunidades de sourcing para produtos de marca própria, incluindo categorias complexas como a de alimentos congelados, que demandam um controle de qualidade rigoroso.

O Fator de US$2,6 Bilhões: Como a Economia Feminina Redefine o Consumo

A composição da base de fornecedores está inserida em um contexto macroeconômico mais amplo e com implicações diretas para o varejo. Uma previsão para o ano de 2025 aponta uma oportunidade de crescimento anual de US$ 2,6 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do mercado de trabalho da região. A condição para que esse potencial se materialize é que as mulheres participem da economia de mercado na mesma medida que os homens.

Este crescimento potencial do PIB não é um dado abstrato; ele se traduz diretamente em maior poder de compra e aumento do consumo das famílias. Para os varejistas, um mercado de trabalho mais equitativo significa uma base de consumidores mais robusta e com maior capacidade de gasto, o que impulsiona a demanda por uma variedade maior de produtos, incluindo as linhas de marca própria que oferecem uma proposta de valor competitiva.

Uma Mudança Estrutural de Três Décadas: A Força de Trabalho em Números

A crescente participação feminina na força de trabalho não é um fenômeno recente, mas uma tendência estrutural de longo prazo. Dados de 2014 já mostravam que 54% das mulheres na região estavam na força de trabalho. Esse número, por si só, representou um aumento de 44% desde o ano de 1990.

Essa trajetória ascendente, que abrange mais de três décadas, sugere uma mudança fundamental e duradoura no perfil tanto da força de trabalho quanto da base empresarial. O impacto é duplo: por um lado, altera a dinâmica do consumo; por outro, aumenta a diversidade e a capacidade da cadeia de fornecedores disponível para as grandes redes de supermercado. A consolidação dessa tendência reforça a importância de estratégias de negócios que reconheçam e integrem a participação econômica feminina em todas as suas facetas.

A Influência de 80%: Conectando Sourcing e Estratégia de Categoria

Para os profissionais que atuam na cadeia de distribuição e no varejo, esses dados convergem em pontos de ação práticos e imediatos. Um fato fundamental que conecta a produção ao consumo é que as mulheres influenciam 80% das compras domésticas. Este número, quando analisado em conjunto com a forte presença de PMEs lideradas por mulheres (40% do total) como potenciais fornecedoras, cria uma sinergia direta entre a estratégia de sourcing e a estratégia de marketing de categoria.

Desenvolver produtos de marca própria que atendam às necessidades e preferências dessa demografia consumidora se torna mais eficaz quando a própria base de fornecedores compartilha desse mesmo perfil. Essa conexão permite um ciclo de feedback mais autêntico e ágil entre quem produz e quem consome, resultando em produtos mais alinhados com a demanda do mercado.

O Desafio Logístico para Compradores de Congelados

Compradores de redes como Carrefour e Walmart devem considerar esses números ao avaliar, desenvolver e expandir seus portfólios de marca própria. A capacitação de PMEs, como a iniciativa observada em Honduras, pode servir como um modelo replicável para programas de desenvolvimento de fornecedores em outros mercados, garantindo padrões de qualidade e conformidade essenciais para categorias como a de congelados.

Para os distribuidores, surge uma oportunidade de negócio clara: atuar como o elo estratégico entre uma base pulverizada de PMEs e as exigências logísticas centralizadas do grande varejo. Essa função de intermediário-agregador pode incluir serviços de consolidação de carga, controle de qualidade, gestão de inventário e garantia da cadeia de frio, resolvendo um dos principais gargalos para a integração de pequenos produtores na cadeia de suprimentos dos grandes supermercados.

Rumo a 2026: Governança e Rastreabilidade na Agenda do Varejo

As informações disponíveis indicam que essas tendências não apenas continuarão, mas se intensificarão nos próximos anos. Indicadores como um blog post intitulado "Fixing the Broken Rung...", com data de 5 de novembro de 2025, e a programação de um evento chamado "Sustainability Week 2026", organizado pelo BID Invest, sugerem que temas como desenvolvimento de fornecedores, equidade de gênero e participação econômica permanecerão no centro da agenda estratégica regional.

O próprio horizonte de planejamento da Inter-American Investment Corporation, cujo copyright é válido para o período de 2017 a 2026, sinaliza um compromisso de longo prazo com essas iniciativas. Isso indica que os investimentos em desenvolvimento da cadeia de fornecimento local são parte de uma visão estratégica, e não de ações pontuais.

Mais Que Preço: A Nova Exigência para Fornecedores de Marca Própria

Para o setor de alimentos congelados, isso se traduzirá em uma pressão crescente por maior rastreabilidade e certificação na cadeia de fornecimento de marcas próprias. A formalização e o desenvolvimento de PMEs fornecedoras deixam de ser apenas uma questão de capacidade produtiva ou de custo. Passam a ser também uma questão de governança corporativa e sustentabilidade. Fatores como origem da matéria-prima, práticas trabalhistas e impacto ambiental estão se tornando cada vez mais relevantes para os grandes varejistas regionais, que precisam proteger suas marcas e atender às expectativas de consumidores mais conscientes. A capacidade de um fornecedor de comprovar conformidade com esses critérios será, cada vez mais, um diferencial competitivo decisivo.