Cold chain

R$20 Bilhões em Portos e Novas Regras Globais Pressionam Cadeia do Frio

O mercado global de logística de cadeia fria apresenta uma trajetória de crescimento que aponta para uma reconfiguração da infraestrutura e da tecnologia do setor. Projeções indicam um salto de um valor aproximado de US$ 436 bilhões em 2025 para US$ 1,3 trilhão até 2034. Este…

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Redação Frozen Retail Insider
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R$20 Bilhões em Portos e Novas Regras Globais Pressionam Cadeia do Frio
Foto de Harman Tatla

De US$ 436 Bilhões a US$ 1,3 Trilhão: Por que a Logística Fria Triplicará de Tamanho?

O mercado global de logística de cadeia fria apresenta uma trajetória de crescimento que aponta para uma reconfiguração da infraestrutura e da tecnologia do setor. Projeções indicam um salto de um valor aproximado de US$ 436 bilhões em 2025 para US$ 1,3 trilhão até 2034. Este avanço, que representa uma multiplicação por três em menos de uma década, não é um movimento especulativo, mas uma resposta direta a mudanças concretas no comportamento do consumidor e na estrutura do comércio global. A capacidade de armazenar e transportar produtos sob temperatura controlada deixa de ser um nicho para se tornar um componente central da cadeia de suprimentos.

Para distribuidores, operadores logísticos e varejistas, esses números representam tanto uma oportunidade de expansão quanto uma pressão iminente sobre a infraestrutura existente. A capacidade de armazenagem, o transporte refrigerado e o escoamento eficiente de produtos precisam acompanhar este ritmo para evitar gargalos operacionais. A falha em adaptar-se pode resultar em quebras na cadeia de abastecimento, impactando a disponibilidade de produtos nas gôndolas e elevando os custos operacionais. O crescimento projetado exige, portanto, uma reavaliação estratégica da capacidade logística em toda a América Latina, uma região chave na exportação de alimentos.

O Consumidor Final como Motor: O Mercado de Congelados Superará US$ 400 Bilhões

A força motriz por trás da expansão da logística fria é, em grande parte, a demanda do consumidor final por alimentos congelados. Uma análise projeta que este setor específico deve crescer de um valor de cerca de US$ 280,56 bilhões em 2025 para aproximadamente US$ 403,59 bilhões até 2032. Outro estudo corrobora a mesma tendência, estimando que o mercado de congelados avançará de US$ 311,74 bilhões em 2025 para US$ 394,93 bilhões em 2030.

A consistência entre as diferentes projeções, apesar de pequenas variações nos valores, sinaliza uma demanda robusta e sustentada. Este aumento no consumo de congelados pressiona toda a cadeia de valor, desde a produção e armazenamento primário até o transporte de última milha e a capacidade de refrigeração no ponto de venda. A necessidade de manter a integridade do produto em cada etapa torna a logística fria um fator crítico para o sucesso no varejo de alimentos.

R$20 Bilhões no Brasil, 1,4 Milhão de TEUs no Equador: A Corrida Portuária da América Latina

Em resposta direta à demanda crescente e à necessidade de escoar a produção, países da América Latina estão implementando planos de investimento em infraestrutura portuária. Estes movimentos não são isolados, mas parte de um esforço regional para aumentar a capacidade e a eficiência, visando capturar uma fatia maior do comércio global de produtos que dependem da cadeia do frio.

Brasil: O Plano de R$ 20 Bilhões para Santos, Paranaguá e Rio de Janeiro

O Brasil anunciou um plano estratégico de infraestrutura portuária que prevê investimentos de cerca de R$ 20 bilhões até 2026. O foco do plano está em licitações em áreas portuárias consideradas críticas para o comércio exterior do país, incluindo os portos de Paranaguá, Santos e Rio de Janeiro. Esta ação governamental visa diretamente aumentar a capacidade de movimentação de cargas, com especial atenção às cargas refrigeradas, que são vitais para a economia de exportação de proteínas do país e para a importação de insumos farmacêuticos e alimentícios.

O investimento tem como objetivo modernizar e ampliar terminais existentes, o que pode resultar em maior eficiência operacional e na redução do tempo de espera dos navios. Para a cadeia de distribuição de congelados, isso se traduz em um potencial para agilizar o fluxo de importação e exportação. Na prática, um escoamento mais rápido nos portos impacta diretamente os prazos e os custos que chegam ao varejista e, consequentemente, ao consumidor final, podendo melhorar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.

Equador e Peru: A Costa do Pacífico Aumenta a Capacidade

O esforço para ampliar a capacidade portuária não é exclusivo do Brasil. Outras nações sul-americanas com saídas estratégicas para o Pacífico também estão executando projetos de grande escala. No Equador, o terminal de águas profundas do Porto de Posorja está em processo de expansão. O objetivo do projeto é aumentar sua capacidade para cerca de 1,4 milhão de TEUs (unidades equivalentes a vinte pés) até o ano de 2026, fortalecendo sua posição como um hub logístico regional.

Da mesma forma, no porto de Callao, no Peru, grandes projetos de expansão como o Píer Bicentenário já resultaram em um aumento significativo na movimentação recente de cargas. Esses projetos no Equador e no Peru indicam um reconhecimento regional da necessidade de uma infraestrutura robusta para suportar o crescimento do comércio global, especialmente de produtos perecíveis que dependem de uma cadeia do frio eficiente e ininterrupta para chegar a mercados na Ásia e América do Norte.

O Fim da Planilha: Como FSMA 204, ICS2 e CIFER Forçam a Digitalização

Enquanto a infraestrutura física se expande para lidar com o volume, uma nova camada de complexidade regulatória digital está sendo implementada pelos principais mercados importadores do mundo. As novas regras exigem um nível de transparência e registro de dados sem precedentes, tornando sistemas manuais ou baseados em planilhas eletrônicas não apenas obsoletos, mas um risco comercial direto. A falha em cumprir essas exigências pode resultar em recusa de cargas, atrasos alfandegários e perdas financeiras significativas.

As Barreiras Digitais dos Mercados Ocidentais

Nos Estados Unidos, a Regra de Rastreabilidade de Alimentos (FSMA 204) torna obrigatório o registro digital de eventos e dados críticos para uma lista de alimentos considerados de maior risco. Isso significa que exportadores para o mercado americano precisam ser capazes de fornecer um histórico eletrônico detalhado do percurso do produto.

A União Europeia segue uma linha semelhante. A partir de setembro de 2025, a apresentação de dados para o Sistema de Controle de Importação 2 (ICS2) tornou-se mandatória, exigindo que informações detalhadas sobre a carga sejam enviadas eletronicamente antes da chegada. No Canadá, a Agência Canadense de Inspeção de Alimentos (CFIA) mantém requisitos específicos para a importação de alimentos sob os Regulamentos de Alimentos Seguros para Canadenses (SFCR), que entraram em vigor em 2025 e também demandam documentação e rastreabilidade robustas.

A Muralha Digital da China: O Sistema CIFER

A China, um dos maiores importadores de alimentos do mundo, também fortaleceu seus controles. Em 2025, o país aumentou as exigências de digitalização e impôs maior responsabilidade pelo registro de exportadores de alimentos, com ajustes significativos no sistema China Import Food Enterprise Registration (CIFER). Para os exportadores e operadores logísticos brasileiros, o acesso a esses mercados depende diretamente da capacidade de coletar, gerenciar e transmitir dados de forma digital, padronizada e em conformidade com as regras de cada bloco econômico.

O Custo do Carbono: Como o EU ETS2 e o SBCE Brasileiro Vão Impactar o Preço do Frete

Além da rastreabilidade digital, a sustentabilidade ambiental deixou de ser um diferencial de marca para se tornar um fator regulatório e de custo direto na logística. Novas legislações estão internalizando o custo das emissões de carbono na operação de transporte, o que terá um impacto direto no frete marítimo.

A inclusão do setor marítimo no sistema de comércio de emissões da União Europeia (EU ETS2) é um dos principais exemplos. Essa medida, juntamente com a iniciativa FuelEU Maritime e novos pacotes regulatórios da Organização Marítima Internacional (IMO), reforça a exigência de redução da intensidade de carbono das embarcações. Na prática, navios que não cumprirem as metas de emissões terão que comprar licenças de carbono, um custo que será repassado ao longo da cadeia de valor.

Essa tendência não é apenas externa. O Brasil também se moveu nessa direção com a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). A consequência direta para a cadeia de distribuição é que o custo das emissões de carbono será progressivamente incorporado ao valor do frete. Operadores logísticos, exportadores e varejistas precisarão contabilizar essa nova variável em suas estruturas de preço, o que pode influenciar desde as rotas de transporte escolhidas até o preço final dos produtos na prateleira.

Gartner Prevê: Por que a IA Gerenciará a Cadeia de Suprimentos até 2028?

A convergência de maior volume de carga, regulamentações digitais complexas e novas exigências de sustentabilidade cria um desafio operacional que ultrapassa a capacidade de gerenciamento humano ou de sistemas tradicionais. A gestão manual ou com ferramentas simplificadas desses múltiplos fatores é inviável e propensa a erros custosos.

A previsão da consultoria Gartner indica o caminho para a solução: até 2028, uma proporção significativa dos relatórios e da gestão da cadeia de suprimentos será tratada por Inteligência Artificial. A adoção de IA e outras tecnologias de automação não é mais uma opção de vanguarda, mas uma necessidade operacional para garantir a conformidade regulatória, otimizar rotas de transporte, gerenciar os vastos volumes de dados de rastreabilidade e calcular a pegada de carbono de cada operação.

Para as empresas da cadeia do frio no Brasil e na América Latina, investir em plataformas tecnológicas que integrem essas funcionalidades será fundamental. A capacidade de se manter competitivo nos mercados internacionais e de gerenciar com eficiência a crescente complexidade logística dependerá diretamente da digitalização e da automação inteligente dos processos. A tecnologia é a ferramenta que permitirá transformar o desafio do volume e da regulação em uma operação eficiente e lucrativa.