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Last Mile no Brasil: Rappi investe US$ 200 mi contra robôs e drones do iFood

Movimentos estratégicos em maio de 2025 por Rappi e iFood, somados à entrada da europeia GLS, intensificam a disputa por um mercado de entrega final projetado para crescer US$ 5,28 bilhões até 2030.

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Ricardo Almeida
Editor
Last Mile no Brasil: Rappi investe US$ 200 mi contra robôs e drones do iFood
Foto de Michael Lee

US$ 5,28 Bilhões em Jogo: A Aritmética do Crescimento Acelerado no Last Mile

O mercado brasileiro de entrega de última milha, ou last mile, está em um ponto de inflexão, marcado por investimentos de capital e avanços tecnológicos que redefinem a competição. Movimentos estratégicos em abril e maio de 2025 por operadores estabelecidos e a entrada de um novo competidor europeu ocorrem em um cenário de crescimento projetado que justifica a intensidade das ações. A análise do setor, usando 2025 como ano base, indica uma oportunidade de mercado substancial, forçando todos os participantes, de varejistas a operadores logísticos, a reavaliar suas estratégias de distribuição para capturar valor em um ambiente em rápida evolução.

A dimensão financeira da oportunidade é o principal catalisador. O mercado de last mile no Brasil deve adicionar US$ 5,28 bilhões em valor entre 2025 e 2030. Este crescimento será impulsionado por uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 15,6% durante o período de previsão, que se estende de 2026 a 2030. A aceleração é imediata: a projeção de crescimento ano a ano (YoY) apenas entre 2025 e 2026 é de 14,5%. Estes números, baseados em dados do período histórico de 2020-2024, não apenas quantificam o potencial de expansão, mas também estabelecem um ritmo exigente para os operadores que buscam manter ou aumentar sua participação de mercado. A competição se dará não apenas por clientes, mas pela capacidade de escalar operações de forma eficiente para atender a essa demanda crescente.

O Motor B2C de US$ 2,73 Bilhões: Quem Domina o Consumidor Final?

O segmento Business-to-Consumer (B2C) é o principal motor por trás dessa expansão. Já em 2024, este segmento foi avaliado em US$ 2,73 bilhões, um valor que sublinha o peso das entregas diretas ao consumidor final na estrutura do mercado. A demanda é particularmente forte em categorias de alta frequência, como alimentos, supermercado e refeições prontas, onde a velocidade e a conveniência são fatores críticos de decisão para o consumidor.

Este cenário atrai uma competição intensa. A análise do mercado identifica cerca de 25 fornecedores relevantes, criando um ambiente fragmentado onde players de diferentes escalas e especialidades disputam contratos e clientes. A competição não se limita aos grandes aplicativos de entrega; inclui desde operadores logísticos tradicionais que se adaptam ao B2C até startups de nicho focadas em segmentos específicos. O desafio para todos é o mesmo: construir uma operação que seja ao mesmo tempo rápida, confiável e economicamente sustentável em um mercado onde as margens são pressionadas pela concorrência e pelas altas expectativas dos consumidores.

Capital vs. Código: As Apostas Divergentes de Rappi e iFood

Em maio de 2025, os dois principais players do setor de delivery de alimentos e supermercado revelaram estratégias fundamentalmente distintas para capturar o crescimento futuro, ilustrando um dilema central do setor: escalar através de capital humano ou de capital tecnológico. As decisões tomadas por Rappi e iFood apontam para visões diferentes sobre como resolver o complexo quebra-cabeça da logística urbana de última milha.

Rappi: US$ 200 Milhões para Escalar a Operação Humana

A Rappi anunciou um investimento de US$ 200 milhões a ser aplicado ao longo de três anos. O capital será direcionado para a expansão de seus serviços de entrega ultrarrápida, com foco em alimentos e produtos de supermercado, em todo o território brasileiro. A estratégia da Rappi parece centrada em dobrar a aposta em seu modelo operacional existente, que se baseia em uma vasta rede de entregadores autônomos.

Este aporte de capital sugere um foco em três áreas principais: densidade de rede, otimização de rotas e incentivos. Aumentar a densidade de entregadores em áreas de alta demanda para reduzir os tempos de coleta e entrega; refinar os algoritmos de alocação e roteirização para maximizar a eficiência de cada viagem; e potencialmente usar parte do capital para subsidiar custos de entrega ou oferecer promoções para ganhar participação de mercado. É uma abordagem de força bruta, que busca resolver o problema da velocidade e da escala através da massificação de sua força de trabalho, uma tática que exige capital intensivo contínuo para sustentar o crescimento.

iFood: A Dupla Aposta em Robôs Terrestres e Drones Aéreos

No mesmo mês, o iFood sinalizou um caminho diferente, direcionando seus esforços para a automação. A empresa firmou uma parceria estratégica com a Synkar para implementar robôs de entrega autônomos, modelo ADA, em grandes cidades brasileiras. Estes veículos são projetados para operar em calçadas e áreas de pedestres, resolvendo o trecho final da entrega em condomínios, centros comerciais ou campi universitários.

Paralelamente, o iFood avançou na frente aérea. A empresa obteve da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a aprovação comercial para operar rotas de entrega com drones em Campinas, utilizando a tecnologia da Speedbird Aero. Esta autorização permite a criação de corredores aéreos para entregas ponto a ponto, contornando o trânsito urbano em rotas pré-definidas e repetitivas. A estratégia do iFood é, portanto, uma aposta de longo prazo na tecnologia para reduzir a dependência de mão de obra, diminuir o custo variável por entrega e criar novas eficiências operacionais que seriam inatingíveis com um modelo puramente humano.

A Cadeia do Frio Sob Pressão: Como Entregar Congelados com Robôs e Drones?

A divergência estratégica entre Rappi e iFood tem implicações diretas para segmentos especializados, como a distribuição de produtos congelados e refrigerados. A integridade da cadeia de frio no trecho final da entrega é um desafio operacional complexo, e cada modelo apresenta um conjunto distinto de variáveis e barreiras a serem superadas.

Para o modelo da Rappi, focado na velocidade via entregadores, o desafio é a consistência e a escalabilidade das soluções de embalagem térmica. Garantir que um produto congelado chegue em perfeitas condições depende da eficiência da bolsa térmica, do tempo de trajeto e da disciplina operacional. A solução é distribuída e depende do desempenho individual de milhares de entregadores. O investimento de capital pode ser usado para fornecer equipamentos melhores ou treinar a rede, mas o controle de qualidade permanece um desafio descentralizado.

A aposta do iFood em drones e robôs, por outro lado, centraliza o desafio tecnológico. As questões passam a ser de engenharia e integração de sistemas. Qual a capacidade de carga refrigerada de um drone da Speedbird Aero? Qual o isolamento térmico de um robô ADA da Synkar e por quanto tempo ele pode manter a temperatura? Como a operação de carregamento desses equipamentos se integrará aos freezers dos centros de micro-fulfillment e dark stores dos varejistas? A viabilidade da entrega autônoma de congelados dependerá da resolução desses problemas de hardware e software. Se bem-sucedida, a automação pode oferecer um controle de temperatura mais consistente e auditável do que uma operação humana em larga escala.

GLS Chega da Europa: O que a Validação Internacional Significa?

O dinamismo do mercado brasileiro também atraiu a atenção de players globais. Em abril de 2025, a empresa europeia de logística GLS entrou no país ao adquirir uma participação majoritária em uma companhia local de logística. Este movimento é significativo por duas razões principais. Primeiro, adiciona um competidor com profundo conhecimento em operações logísticas na Europa, acesso a capital e uma base de clientes internacionais que pode agora ser servida diretamente no Brasil.

Segundo, e talvez mais importante, a entrada da GLS funciona como uma validação externa do potencial de crescimento do setor de last mile brasileiro aos olhos de investidores e operadores estrangeiros. Uma aquisição por um player estabelecido como a GLS sinaliza que o mercado atingiu um nível de maturidade e escala que justifica investimentos diretos. A chegada da GLS pode intensificar a competição por grandes contratos de distribuição com varejistas e indústrias, que podem ser atraídos pela expertise e pela rede global do novo concorrente. Isso pressiona os operadores locais a aprimorar seus níveis de serviço e sua eficiência de custos para se manterem competitivos.

Mais de 85% Sem Contato: Como a Preferência do Consumidor Acelera a Automação

Um fator contextual que permeia todas essas estratégias é a consolidação da entrega sem contato como o padrão operacional dominante. Atualmente, esta modalidade representa mais de 85% das entregas urbanas no Brasil. O que começou como uma medida de segurança durante o período de 2020-2024 tornou-se uma preferência arraigada do consumidor, que valoriza a conveniência e a mínima interação.

Este comportamento do consumidor cria um ambiente extremamente favorável para a adoção de tecnologias de automação. Robôs e drones são, por sua natureza, veículos de entrega sem contato, eliminando completamente a interação humana no ponto de recebimento. A aceitação do público a um robô deixando um pacote na porta ou a um drone pousando em uma área designada é significativamente maior em um ambiente onde a entrega sem contato já é a norma.

Para os distribuidores e varejistas, isso implica uma necessidade de adaptação de processos. Os sistemas de expedição, rastreamento e comprovação de entrega precisam ser flexíveis o suficiente para operar de forma fluida com múltiplos modelos logísticos. A capacidade de uma plataforma de e-commerce se integrar via API tanto com a rede de entregadores de um aplicativo, quanto com um robô autônomo ou um serviço de drone, será um diferencial competitivo. A tecnologia não está mudando apenas a entrega em si, mas toda a cadeia de software e processos que a suporta. A consolidação da entrega sem contato não é apenas uma tendência de consumo; é um acelerador fundamental da transição para uma logística de última milha mais automatizada.