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Mercado de Last-Mile no Brasil: Projeções Divergentes Apontam para US$ 18 Bi em 2034

O mercado brasileiro de entrega last-mile apresenta projeções de crescimento robustas, embora conflitantes, impulsionado pela expansão do e-commerce. Para distribuidores e varejistas de congelados, a análise dos dados operacionais revela um foco em transporte terrestre, B2C e entregas no dia seguinte.

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Juliana Costa
Editor
Mercado de Last-Mile no Brasil: Projeções Divergentes Apontam para US$ 18 Bi em 2034
Foto de Khuc Le Thanh Danh

US$ 16,5 Bilhões ou US$ 18 Bilhões? A Divergência de Projeções que Define Estratégias

O mercado brasileiro de entrega de última milha (last-mile) demonstra um forte e inequívoco potencial de expansão, com projeções que, apesar de divergentes em seus números específicos, apontam para um crescimento significativo até 2034. A análise dos dados disponíveis revela um setor impulsionado pelo e-commerce e estruturado em torno de modalidades operacionais específicas. No entanto, a variação nas estimativas de consultorias distintas expõe um ambiente dinâmico e de difícil mensuração precisa, exigindo que os operadores logísticos planejem cenários distintos para mitigar riscos e capturar oportunidades.

O Ponto de Partida: Uma Diferença de US$ 3,4 Bilhões na Estimativa para 2025

As discrepâncias nas projeções de curto prazo são notáveis e têm implicações diretas no planejamento de capital. A Dimension Market Research projeta que o mercado atingirá US$ 8,4 bilhões já em 2025. Em contrapartida, o IMARC Group estima um valor consideravelmente menor para o mesmo ano, de US$ 5,0 bilhões.

Essa diferença de US$ 3,4 bilhões não é apenas uma abstração estatística. Para um operador logístico, ela representa a diferença entre um mercado já maduro e um em fase de consolidação mais inicial. A percepção da escala atual do setor afeta diretamente as estratégias de investimento em tecnologia, a agressividade na expansão da frota e a construção de novos centros de distribuição. Uma avaliação baseada no número maior pode justificar investimentos mais robustos, enquanto a projeção mais conservadora pode sugerir uma abordagem mais cautelosa e focada em otimização de ativos existentes.

A Bifurcação do Crescimento: 7,8% ou 15,3% de CAGR?

A divergência se estende e se amplifica nas taxas de crescimento anual composto (CAGR) projetadas para a próxima década. A Dimension Market Research prevê uma expansão a uma CAGR de 7,8%, levando o mercado a um total de US$ 16,5 bilhões até 2034. Por outro lado, o IMARC Group projeta um crescimento muito mais acelerado, com uma CAGR de 15,30% para o período de 2026-2034, o que resultaria em um mercado de US$ 18,0 bilhões.

A diferença entre esses dois ritmos de crescimento é fundamental. Uma taxa de 7,8% sugere uma expansão estável e previsível, permitindo um planejamento de capacidade mais linear. Em contraste, uma taxa de 15,30% indica um crescimento exponencial, quase dobrando o mercado a cada cinco anos. Este segundo cenário exige uma agilidade operacional e uma capacidade de escalar operações muito maiores, impactando diretamente as decisões sobre expansão de frota, contratação de pessoal e capacidade de armazenagem. A escolha de qual projeção seguir pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma estratégia de longo prazo.

O Motor de US$ 34,5 Bilhões: Como o E-commerce Triplicou e Redefiniu a Logística

O motor por trás da expansão do last-mile é, inequivocamente, o crescimento do varejo eletrônico no Brasil. Os dados confirmam uma correlação direta e intensa entre o aumento das vendas online e a necessidade de serviços de entrega mais rápidos e eficientes. A infraestrutura logística é constantemente pressionada a se adaptar ao volume e às expectativas geradas pelo comércio digital.

De US$ 12,25 Bi para US$ 34,5 Bi: O Salto de Volume em Cinco Anos

Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico, o faturamento do e-commerce varejista no país saltou de US$ 12,25 bilhões em 2018 para US$ 34,5 bilhões em 2023. Este aumento de quase 300% no volume de transações online é o principal fator que sobrecarrega e, ao mesmo tempo, impulsiona a inovação na infraestrutura logística de última milha. Cada transação online se converte em uma demanda física por coleta, triagem e entrega, tornando a eficiência do last-mile um componente crítico para a experiência do cliente e a viabilidade do negócio de varejo.

Mais Pedidos, Maior Valor: O Efeito Multiplicador na Demanda

O crescimento não se deu apenas em volume, mas também em valor. O ticket médio dos pedidos registrou um aumento no mesmo período, passando de 435 para 470 reais. Adicionalmente, dados da International Trade Association indicam que o Brasil continua a apresentar um crescimento robusto de 14,3% no e-commerce.

A combinação de mais pedidos e de maior valor por pedido amplifica a demanda por serviços de entrega de forma não linear. Pedidos de maior valor frequentemente carregam consigo uma expectativa maior por parte do consumidor em relação à segurança, rastreabilidade e velocidade da entrega. Isso pressiona os operadores a investirem em tecnologia de rastreamento, seguros e processos de manuseio mais sofisticados, aumentando a complexidade operacional para além do simples transporte do ponto A ao ponto B.

A Anatomia da Operação: 75% Terrestre, 68% B2C e a Obsessão pelo Dia Seguinte

A análise da estrutura do mercado revela um perfil operacional claro, com a dominância de certos modais, tipos de serviço e prazos de entrega. Esses números oferecem um guia para os operadores que buscam otimizar suas malhas de distribuição, especialmente para produtos com requisitos específicos, como os de temperatura controlada.

Por que Veículos Leves (LCVs) Detêm 46% do Mercado?

O transporte terrestre é o pilar do setor, devendo responder por aproximadamente 75,0% da participação de mercado em 2025. Dentro desse modal, os veículos comerciais leves (LCVs) são os protagonistas, com uma previsão de deterem 46,0% do market share no mesmo ano. A preferência por LCVs não é acidental; ela reflete as necessidades da entrega urbana. Esses veículos oferecem a combinação ideal de capacidade de carga para pacotes de e-commerce e agilidade para navegar em trânsito denso e ruas estreitas, algo que caminhões maiores não conseguem fazer. Para a distribuição de alimentos congelados em centros urbanos, a capilaridade e a facilidade de adaptação para refrigeração dos LCVs são ativos operacionais críticos para garantir a integridade da cadeia de frio até a porta do consumidor.

O Consumidor Final Dita o Ritmo com 68% das Entregas

O segmento B2C (Business-to-Consumer) é o principal motor do mercado, com uma projeção de liderar com cerca de 68,0% da participação total em 2025. Este dado indica que a maior parte do volume de entregas é direcionada ao consumidor final. Operacionalmente, isso implica uma complexidade logística muito maior em comparação com o modelo B2B (Business-to-Business). Entregas B2C são atomizadas, com um único item por parada, em centenas ou milhares de endereços diferentes. Isso exige algoritmos de roteirização sofisticados, gestão de janelas de entrega apertadas e uma estrutura robusta para lidar com tentativas de entrega fracassadas e logística reversa, que são muito mais frequentes neste modelo.

A Pressão do Relógio: 39% do Mercado Exige Entrega "Next-Day"

Em relação aos prazos, a entrega no dia seguinte (next-day delivery) deve dominar o mercado, respondendo por aproximadamente 39,0% da participação total em 2025. Essa preferência do consumidor estabelece um padrão de serviço exigente que reverbera por toda a cadeia de suprimentos. Para cumprir essa promessa, os operadores precisam de centros de distribuição localizados estrategicamente perto dos grandes centros consumidores, processos de triagem (sorting) altamente eficientes e operando 24/7, e uma integração tecnológica impecável entre a plataforma de e-commerce e o sistema de gestão de transporte. Para a cadeia de frio, o desafio é ainda maior, pois é preciso garantir a integridade do produto congelado em um ciclo logístico completo que dura menos de 24 horas.

O Mapa Competitivo: De Gigantes do E-commerce a Novas Fronteiras Geográficas

O cenário competitivo é formado por uma mistura de players de tecnologia, operadores logísticos tradicionais e plataformas de e-commerce que internalizam suas operações para ganhar controle e eficiência. Ao mesmo tempo, o esgotamento relativo dos grandes centros abre novas fronteiras geográficas como vetores de crescimento.

A Verticalização Logística dos Grandes Varejistas

Plataformas como Mercado Livre e Magalu têm expandido significativamente suas redes logísticas próprias. Essa estratégia de verticalização visa reduzir a dependência de terceiros, diminuir custos no longo prazo e, crucialmente, controlar a experiência de entrega do cliente, que se tornou um diferencial competitivo chave. Ao mesmo tempo, empresas como os Correios, um operador estatal tradicional, e plataformas de entrega sob demanda como iFood e Rappi são citadas como competidores importantes. A presença de iFood e Rappi é particularmente relevante para o setor de alimentos, pois eles introduziram e popularizaram o modelo de entrega ultrarrápida (quick commerce), abrindo canais para a distribuição de produtos congelados em minutos, não em dias.

Além do Eixo Rio-São Paulo: A Oportunidade em Goiânia e Curitiba

Existe uma oportunidade crescente e documentada para o desenvolvimento de redes de entrega hiperlocal em cidades de nível 2 e 3, como Goiânia e Curitiba. À medida que o e-commerce se interioriza e a concorrência nos grandes eixos metropolitanos se intensifica, a próxima onda de crescimento virá de mercados com menor densidade, mas com poder de compra em ascensão. Para distribuidores de produtos, incluindo congelados, isso sinaliza uma necessidade estratégica de investir em centros de distribuição e frotas regionais. Capturar a demanda fora dos grandes centros exigirá a construção de uma infraestrutura logística do zero em muitos casos, um desafio que representa também uma barreira de entrada para concorrentes e uma vantagem para quem se mover primeiro.