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Last-Mile no Brasil: Mercado de US$ 16,5 Bi até 2034 e o impacto na cadeia fria

O mercado brasileiro de entrega last-mile deve quase dobrar de tamanho até 2034, impulsionado por um e-commerce de R$ 200 bilhões. A estrutura atual, focada em entregas B2C em veículos leves, apresenta desafios e oportunidades para a distribuição de congelados.

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Juliana Costa
Editor
Last-Mile no Brasil: Mercado de US$ 16,5 Bi até 2034 e o impacto na cadeia fria
Foto de Brian Wangenheim

Quase o Dobro em Oito Anos: O Mercado de Last-Mile Brasileiro Rumo aos US$ 16,5 Bilhões

O motor principal por trás da reconfiguração da logística brasileira é o e-commerce, que em 2024 ultrapassou a marca de BRL 200 bilhões em vendas. Este volume massivo de transações online alimenta diretamente a demanda por serviços de entrega de última milha, um setor cuja escala econômica está projetada para uma expansão significativa. As previsões de mercado indicam um salto de um valor de USD 8,4 bilhões em 2026 para USD 16,5 bilhões até 2034.

Este crescimento representa uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 7,8% para o período. Trata-se de um avanço sustentado que sinaliza uma mudança estrutural, não um pico momentâneo. Para setores com requisitos logísticos complexos, como o de alimentos congelados, esses números são um chamado à ação. A expansão do mercado de entregas diretas ao consumidor cria uma arena competitiva inteiramente nova e gera uma demanda por soluções de cadeia de frio que antes eram consideradas de nicho. A adaptação não é mais opcional; operadores logísticos e varejistas são forçados a desenvolver capacidades para atender a um consumidor digital que espera velocidade e conveniência, mesmo para produtos que exigem controle de temperatura rigoroso. A questão deixa de ser se a entrega de congelados ao consumidor final é viável, e passa a ser como implementá-la de forma eficiente e escalável.

O Raio-X da Última Milha em 2025: Quem Compra, Como Recebe e Onde Está o Volume?

Uma análise detalhada da estrutura do mercado de last-mile projetada para 2025 revela um ecossistema com características bem definidas. A compreensão destes dados é fundamental para qualquer operador que planeje otimizar suas rotas, dimensionar sua frota e alinhar seus investimentos com as forças que de fato moldam a demanda. Os números mostram um mercado dominado pelo consumidor final, dependente do transporte rodoviário e pressionado por prazos de entrega cada vez mais curtos.

### B2C é o Rei: Por que 68% do Mercado Depende do Consumidor Final?

A dinâmica do mercado de última milha no Brasil é inequivocamente orientada para o consumidor individual. O segmento de serviços Business-to-Consumer (B2C) deve responder por 68,0% do mercado em 2025. Este dado é corroborado pela análise do usuário final, onde os clientes de varejo devem compor 63,0% da demanda total. A sobreposição e a magnitude desses números confirmam que a logística de last-mile no país é predominantemente definida pelas compras de pessoas físicas, e não por transferências de mercadorias entre empresas (B2B).

Para o setor de alimentos congelados, esta realidade impõe um desafio operacional de grande complexidade. A logística da cadeia de frio, tradicionalmente focada em grandes volumes transportados entre centros de distribuição e supermercados, precisa agora ser resolvida em uma escala massiva e pulverizada. A tarefa é garantir a integridade da temperatura de milhares de pequenos pacotes, cada um destinado a uma residência diferente. Isso exige não apenas veículos adaptados, mas também processos de roteirização, embalagem e monitoramento que funcionem em um modelo de alta capilaridade e baixo volume por entrega.

### 75% por Terra, 46% em VCLs: A Frota que Move o E-commerce Nacional

A espinha dorsal da operação logística de última milha no Brasil é e continuará sendo o modal terrestre. As projeções para 2025 indicam que o transporte rodoviário responderá por 75,0% do mercado. Dentro desta vasta categoria, a ferramenta de trabalho principal serão os veículos comerciais leves (VCLs), que devem capturar 46,0% do segmento de veículos.

A predominância de VCLs aponta para um modelo operacional focado em agilidade urbana, flexibilidade para navegar em trânsito denso e capacidade de realizar múltiplas paradas em curtas distâncias. Este modelo é perfeitamente adequado para a entrega de pacotes do e-commerce tradicional. Contudo, para o transporte de congelados, ele apresenta uma barreira significativa. A adaptação de uma frota de VCLs com sistemas de refrigeração confiáveis e homologados representa um investimento de capital intensivo. A questão para os operadores é avaliar a viabilidade econômica de tal adaptação em larga escala versus a utilização de frotas especializadas, que podem ser menos ágeis no contexto urbano. A escolha do veículo deixa de ser uma decisão puramente logística e passa a ser uma decisão estratégica de investimento.

### A Pressão do Relógio: 57% da Demanda do E-commerce e o Padrão de Entrega em 24 Horas

O ritmo das operações é ditado pelas expectativas do consumidor digital, que são moldadas pelas grandes plataformas de varejo. Em 2025, as aplicações de e-commerce e varejo devem capturar 57,0% do mercado, consolidando-se como o principal motor de geração de demanda para a logística de última milha. Simultaneamente, a velocidade de entrega se torna um fator competitivo central. A modalidade de entrega no dia seguinte (next-day delivery) será a mais comum, respondendo por 39,0% de todas as operações.

Essa combinação de alto volume e alta velocidade cria um ambiente de pressão constante sobre a cadeia logística. Para o setor de congelados, essa pressão é dupla. Não basta ser rápido; é preciso ser rápido e manter a temperatura controlada de forma ininterrupta, desde o centro de distribuição até a porta do consumidor. Um atraso de algumas horas, que seria um inconveniente para um produto seco, pode significar a perda total de um produto congelado. Portanto, a exigência de entrega em 24 horas força os operadores da cadeia de frio a integrar velocidade e controle de temperatura como elementos inseparáveis de sua proposta de valor.

O Mapa do Poder Logístico: Onde se Concentra a Operação e Quem São os Players-Chave?

A geografia e o cenário competitivo da logística de última milha no Brasil não são uniformes. Existe uma clara concentração de infraestrutura e atividade em regiões específicas, bem como uma coexistência de operadores com modelos de negócio, origens e capacidades muito distintas. Entender este mapa é crucial para definir estratégias de entrada, parcerias e expansão.

### O Eixo do Sudeste: São Paulo como Epicentro

A infraestrutura logística do país exibe uma forte concentração geográfica. São Paulo funciona como o centro logístico dominante, concentrando a maior parte dos centros de distribuição, da infraestrutura tecnológica e do volume de entregas. Atuando como hubs secundários, mas ainda de grande importância, estão o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Esta concentração no Sudeste define as áreas de maior eficiência operacional, onde os custos por entrega tendem a ser menores e os prazos, mais curtos.

Consequentemente, esta é também a região de maior competição entre os provedores de logística. Para um distribuidor de alimentos congelados com ambições nacionais, esta realidade geográfica impõe uma estratégia de duas velocidades: uma para o eixo Sudeste, focada em otimização de custos e diferenciação de serviço em um mercado saturado, e outra para o restante do Brasil, focada em superar desafios de infraestrutura e garantir capilaridade a um custo competitivo.

### Incumbentes e Disruptores: A Batalha pela Última Milha

O cenário competitivo é composto por uma mistura de empresas estatais, startups de tecnologia e operadores globais. De um lado, estão os incumbentes. A estatal Correios, fundada em 1969 e sediada em Brasília, continua a ser um ator relevante devido à sua capilaridade nacional inigualável. Do mesmo ano de fundação, 1969, vem a DHL Supply Chain Brazil, parte do grupo alemão com sede em Bonn, que traz para o mercado local uma estrutura global, processos padronizados e expertise em logística complexa.

Do outro lado, estão os disruptores tecnológicos, todos sediados em São Paulo e fundados em um curto período. O iFood (2011) redefiniu a entrega de alimentos, criando uma vasta rede de entregadores e uma plataforma otimizada para entregas ultrarrápidas. A Loggi (2013) e o Mercado Envios (2013), o braço logístico do Mercado Livre, aplicaram modelos baseados em tecnologia para otimizar a logística de pacotes em geral, focando na eficiência urbana.

Para um distribuidor de congelados, a escolha do parceiro logístico ideal depende de um balanço cuidadoso entre esses perfis. A decisão envolve ponderar a cobertura nacional de um incumbente contra a agilidade tecnológica de um disruptor, e, fundamentalmente, avaliar a capacidade de cada um deles de integrar e garantir serviços de temperatura controlada dentro de suas redes operacionais existentes. A solução pode não estar em um único parceiro, mas em um mosaico de provedores que cubram diferentes regiões e necessidades.