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Last-mile no Brasil: mercado adicionará US$ 4 bi com CAGR de 15,4% até 2028

O mercado brasileiro de entrega last-mile deve crescer US$ 4,01 bilhões entre 2024 e 2028, impulsionando uma expansão de 25% ao ano na capacidade da rede e forçando operadores de congelados a reavaliar suas estratégias logísticas.

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Ricardo Almeida
Editor
Last-mile no Brasil: mercado adicionará US$ 4 bi com CAGR de 15,4% até 2028
Foto de Nechama Lock

US$ 4,01 bilhões em quatro anos: o que define a nova escala do last-mile brasileiro?

O mercado de entrega de última milha (last-mile) no Brasil está projetado para uma expansão quantificável, adicionando US$ 4,01 bilhões em valor de mercado entre 2024 e 2028. A análise, que utiliza o ano de 2023 como base de referência, aponta para uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 15,4% durante este período. Este ritmo não apenas indica um crescimento robusto, mas também representa uma aceleração significativa em relação a projeções anteriores para o setor correlato de entregas expressas, que previam um CAGR de 11,4% para o período de 2021 a 2026. A diferença de quatro pontos percentuais sinaliza uma intensificação da demanda e do investimento no segmento final da cadeia logística.

Para distribuidores e varejistas do setor de alimentos congelados, estes números transcendem a observação de um mercado adjacente. Eles representam uma mudança estrutural na infraestrutura logística do país, com implicações diretas na capacidade de entrega, na estrutura de custos operacionais e, fundamentalmente, nas expectativas dos consumidores finais por velocidade e confiabilidade. A análise do período histórico de 2018 a 2022, que serve de contexto para a projeção, confirma uma trajetória de crescimento consistente que agora entra em uma fase de aceleração.

A métrica central: US$ 4,01 bilhões como indicador de oportunidade e pressão

O valor projetado de US$ 4,01 bilhões é o principal indicador quantitativo da oportunidade e do desafio que se apresentam. O horizonte de previsão, de 2024 a 2028, estabelece um cronograma de médio prazo para que os operadores da cadeia de frio, e de outros setores, ajustem seus planos de investimento, modelos de negócio e parcerias estratégicas. Este valor agregado não será distribuído uniformemente, beneficiando os players que conseguirem alinhar sua capacidade operacional e tecnológica com as novas demandas do mercado. A escala do crescimento implica uma competição mais acirrada por recursos, desde motoristas e veículos até tecnologia de otimização e espaço em centros de distribuição urbanos.

De 11,4% para 15,4%: por que o ritmo de crescimento está acelerando?

A aceleração da taxa de crescimento de 11,4% (projeção 2021-2026 para entregas expressas) para 15,4% (projeção 2024-2028 para last-mile) é um dado analítico central. Isso sugere que os fatores impulsionadores do mercado, como a penetração do e-commerce e a demanda por conveniência, estão se intensificando a um ritmo mais rápido do que o previsto anteriormente. A especialização no segmento de "última milha" ganha destaque, separando-se analiticamente da logística de longa distância. Essa aceleração coloca pressão sobre a infraestrutura existente e torna a eficiência operacional não mais um diferencial competitivo, mas uma condição para a sobrevivência no mercado.

Os dois motores do crescimento: por que a capacidade física e a tecnologia são indissociáveis?

A taxa de crescimento projetada de 15,4% é sustentada por dois pilares interdependentes: a expansão da capacidade física da rede e a adoção acelerada de tecnologia. A análise dos dados indica que esses dois fatores não operam em paralelo, mas sim se retroalimentam. O aumento da capacidade física sem otimização tecnológica leva à ineficiência e a custos elevados, enquanto a tecnologia sem uma rede física robusta para executar as entregas tem seu impacto limitado.

Expansão física a 25% ao ano: mais do que apenas mais veículos

A capacidade da rede de entrega no Brasil está se expandindo a um ritmo de 25% ano a ano. Este número reflete um investimento concreto em ativos físicos, como a abertura de novos centros de distribuição mais próximos dos centros urbanos (dark stores, micro-hubs), a ampliação de frotas de veículos de diferentes modais (motos, vans, utilitários) e a contratação de mão de obra. Este aumento de infraestrutura é a condição fundamental para absorver o volume crescente de pedidos gerados pelo e-commerce e por outros serviços de entrega direta ao consumidor. Para o setor de congelados, isso significa uma maior disponibilidade potencial de parceiros e infraestrutura, mas também maior competição por esses mesmos ativos.

Adoção tecnológica a 12% ao ano: a digitalização como multiplicador de eficiência

Paralelamente à expansão física, a adoção de plataformas de gerenciamento de entregas, softwares de logística, sistemas de roteirização e outras soluções tecnológicas avança a uma taxa de 12% ao ano. Essa digitalização é o que permite que o crescimento de 25% na capacidade física seja operacionalmente viável e economicamente sustentável. Empresas globais como UPS, DHL e Deutsche Post já utilizam intensivamente tecnologias de otimização para melhorar o planejamento de rotas, a alocação de recursos e a eficiência geral da força de trabalho. No contexto brasileiro, essa taxa de adoção indica que o mercado está se movendo rapidamente para um padrão onde a gestão baseada em dados em tempo real é a norma.

Além das transportadoras: quem são os players que moldam o ecossistema de US$ 4 bilhões?

O ecossistema de entrega last-mile no Brasil é composto por uma gama diversificada de empresas, indicando a complexidade e a interconexão da cadeia de valor. A competição e a colaboração ocorrem entre operadores logísticos tradicionais, conglomerados com braços de transporte, empresas de tecnologia pura e consultorias estratégicas. A análise de mercado perfila um conjunto de players que ilustra essa diversidade.

Operadores Logísticos Globais e Regionais

Neste grupo central estão os operadores tradicionais de logística e transporte, cuja escala e expertise definem muitos dos padrões do setor. A lista inclui DHL Express Ltd., FedEx Corp., e United Parcel Service Inc. (UPS), que trazem sua experiência global e plataformas tecnológicas para o mercado brasileiro. A eles se juntam players europeus de grande porte como DSV AS, Kuehne + Nagel Management AG, e a francesa FM Logistic. A presença da japonesa Nippon Express Holdings Inc. e da britânica Royal Mail Group Ltd. completa um quadro de competição internacionalizada.

A Conexão Intermodal e a Infraestrutura de Base

A análise também aponta a importância de empresas que conectam a última milha com a logística de longa distância. A presença de gigantes do transporte marítimo como CMA CGM SA Group, e de conglomerados ferroviários como Deutsche Bahn AG (controladora da DB Schenker) e SNCF Group (controladora da Geodis), demonstra que a eficiência do last-mile depende de uma cadeia de suprimentos integrada. No âmbito rodoviário, a inclusão de empresas norte-americanas como J.B. Hunt Transport Services Inc. e Werner Enterprises Inc. sinaliza a relevância de players especializados em transporte terrestre de grande escala, enquanto a XPO Inc. atua em múltiplos segmentos logísticos.

A Camada de Inteligência, Automação e Energia

A competição no mercado de last-mile não se dá apenas no campo físico. A presença de empresas como Accenture PLC e Infosys Ltd. demonstra que a consultoria estratégica e a integração de sistemas são componentes cruciais para a otimização das operações. Do lado da tecnologia de hardware e software, Honeywell International Inc. oferece soluções de automação para armazéns e coleta de dados. Schneider Electric SE representa a interface crítica entre logística e gestão de energia e infraestrutura, essencial para centros de distribuição e frotas de veículos elétricos. Finalmente, players de tecnologia pura como FarEye Technologies Inc. e Mara Labs Inc. focam diretamente em plataformas de software para otimização da última milha, competindo para se tornarem o "cérebro" por trás das operações de entrega.

Cadeia de frio sob pressão: como a expansão do last-mile redefine a logística de congelados?

A expansão do mercado de last-mile tem consequências diretas e complexas para a cadeia de frio. O crescimento de 25% na capacidade da rede de entrega abre portas para novos modelos de negócio, como o quick-commerce de alimentos congelados e a entrega direta de produtores a consumidores. Contudo, essa mesma expansão eleva a pressão sobre os operadores logísticos especializados e os distribuidores que gerenciam suas próprias frotas.

Oportunidade e complexidade: o desafio da temperatura controlada

A necessidade de manter a temperatura controlada de forma ininterrupta até a porta do consumidor final torna a operação de last-mile de congelados intrinsecamente mais complexa e cara do que a de produtos secos. Cada ponto de transferência, cada minuto no trânsito e cada falha no equipamento de refrigeração representam um risco para a integridade do produto. A expansão da rede geral de last-mile aumenta a expectativa do consumidor por entregas rápidas e baratas, mas a cadeia de frio não pode comprometer a segurança em nome da velocidade. Isso cria um desafio de equilibrar custo, rapidez e conformidade regulatória.

Tecnologia como pré-requisito, não como diferencial

Neste cenário, a tecnologia, cuja adoção geral cresce 12% ao ano, torna-se um fator não apenas de eficiência, mas de viabilidade operacional para a cadeia de frio. Plataformas que permitem o monitoramento de temperatura em tempo real, o envio de alertas automáticos em caso de desvios, a otimização de rotas que consideram a autonomia de veículos refrigerados e a gestão precisa de janelas de entrega são essenciais. A capacidade de fornecer um registro auditável da temperatura ao longo de toda a jornada de entrega (data logging) está se tornando um requisito padrão exigido por grandes varejistas e consumidores.

O valor do tempo definido e o dilema estratégico

O segmento de entregas com tempo definido (Time-definite), que já era avaliado em US$ 4,8 bilhões em 2018, tende a ganhar ainda mais relevância no contexto atual. Para o setor de congelados, isso se traduz em uma demanda crescente por serviços premium que garantam a integridade do produto e a pontualidade da entrega. Isso pode justificar investimentos em frotas especializadas, embalagens térmicas de alta performance e parcerias estratégicas com os grandes operadores logísticos que possuem capacidade comprovada nesse tipo de serviço.

A questão central para distribuidores e varejistas de congelados é se devem construir e escalar sua própria capacidade logística de last-mile ou se aliar aos players de mercado que estão impulsionando essa expansão de US$ 4,01 bilhões. A primeira opção oferece maior controle, mas exige alto investimento e expertise. A segunda opção permite acesso a redes e tecnologias de ponta, mas pode significar menor margem e dependência de terceiros. A decisão estratégica tomada nos próximos anos definirá os vencedores e perdedores neste segmento especializado.