Por Que Amazon e MercadoLivre Precisam de Lojas Físicas para Vender Congelados?
Movimentos estratégicos recentes no varejo alimentar latino-americano indicam uma reconfiguração acelerada na distribuição de alimentos, especialmente na categoria de congelados. A Amazon iniciou a operação Amazon Now no Brasil, uma incursão direta no setor de supermercados que depende da Rappi como parceira logística para a entrega de última milha. Quase simultaneamente, o MercadoLivre, um dos principais players de e-commerce da região, formalizou uma aliança com a rede de atacarejo Assaí para alavancar sua infraestrutura física e capilaridade.
Essas parcerias não são movimentos isolados, mas sim a manifestação de uma estratégia calculada. Plataformas digitais nativas estão reconhecendo a barreira de entrada imposta pela complexidade da cadeia de frio e pela necessidade de proximidade com o consumidor. Em vez de construir do zero uma rede de distribuição dispendiosa e demorada, optam por um modelo de ativos leves, utilizando a infraestrutura já estabelecida do varejo físico. Esta abordagem permite-lhes competir no setor de supermercados de forma mais ágil, focando em sua expertise em tecnologia e experiência do cliente, enquanto terceirizam a complexidade logística.
A Estratégia de Ativos Leves: Como o E-commerce "Aluga" a Capilaridade do Varejo
A análise de Daniel Ceanu, publicada em 29 de fevereiro de 2024, já contextualizava as mudanças no comportamento do consumidor e as pressões econômicas sobre o setor de alimentos na América Latina. É neste cenário que as operações da Amazon e do MercadoLivre se inserem, respondendo a uma demanda por conveniência que agora se estende aos produtos congelados. A questão fundamental para distribuidores tradicionais e redes de varejo que ainda não se aliaram a players digitais é como se posicionar. A entrada de gigantes do e-commerce, operando através dos ativos físicos de terceiros, redefine as linhas competitivas. A competição não é mais apenas entre lojas físicas ou entre plataformas online, mas entre ecossistemas integrados que combinam o alcance digital com a eficiência da infraestrutura física.
US$ 3 Bilhões até 2035: A Corrida pela Infraestrutura da Cadeia de Frio
A viabilidade e a escalabilidade das novas ofensivas de e-commerce no setor de alimentos dependem diretamente da robustez da cadeia de frio. O investimento nesta infraestrutura é um indicador claro da seriedade e do potencial percebido neste mercado. As projeções para o setor de câmaras frias e freezers walk-in na América Latina confirmam essa tendência. O valor do mercado está projetado para atingir US$ 1,6 bilhão já em 2025, um número que representa a base instalada para a armazenagem em centros de distribuição e nos backrooms das lojas.
As projeções de longo prazo são ainda mais significativas, reforçando a solidez do ciclo de investimento. O mercado deve quase dobrar de valor, alcançando US$ 3,0 bilhões até 2035. Este crescimento será sustentado por uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 6,8% durante o período de 2025 a 2035. Um CAGR de 6,8% indica um investimento consistente e de longo prazo, não apenas uma reação pontual do mercado. É este ritmo de expansão da infraestrutura que cria as condições materiais para que operações de entrega rápida de produtos congelados, como as propostas por Amazon/Rappi e MercadoLivre/Assaí, se tornem economicamente viáveis e geograficamente abrangentes.
Por Dentro do Investimento: Por Que 68,4% do Mercado Está em Unidades Internas?
Uma análise mais detalhada da composição deste mercado revela a direção estratégica dos investimentos. O segmento de instalações internas (indoor) é o principal motor, projetado para responder por 68,4% do mercado em 2025. Essa predominância não é acidental. Ela aponta para investimentos focados precisamente onde a logística do quick commerce mais precisa de suporte: na expansão da capacidade de estocagem dentro de supermercados, em centros de distribuição urbanos e, de forma crucial, em dark stores.
As dark stores são instalações otimizadas exclusivamente para atender pedidos online, sem acesso ao público. A dominância do segmento indoor reflete a construção dessa nova camada de infraestrutura logística, projetada para pulverizar o estoque e posicioná-lo o mais perto possível do consumidor final. Este é um requisito fundamental para cumprir promessas de entrega em minutos ou poucas horas. A expansão de redes como o Assaí, agora parceiro estratégico do MercadoLivre, é um exemplo concreto de como o crescimento do varejo físico contribui diretamente para o avanço deste segmento de 68,4%, criando a base para a logística digital.
O Elo Final: Um Mercado de Refrigeradores de US$ 15,95 Bilhões Sustenta a Demanda
O ciclo de investimento na cadeia de distribuição B2B encontra um paralelo indispensável na ponta consumidora. A estratégia de vender mais congelados online só é sustentável se os lares tiverem capacidade e interesse em armazenar esses produtos. Os dados do mercado de refrigeradores domésticos na América Latina confirmam que essa condição está sendo atendida. Avaliado em US$ 10,67 bilhões para 2025, o mercado está previsto para crescer de forma robusta, atingindo US$ 15,95 bilhões até 2035.
A taxa de crescimento projetada para o período de 2026 a 2035 é de 4,10% ao ano (CAGR). Este crescimento contínuo na base instalada de refrigeradores domésticos indica uma crescente capacidade de armazenamento nos lares, o que por sua vez sustenta a demanda por compras de maior volume e frequência de produtos que necessitam de refrigeração. O investimento do varejo em sua infraestrutura de frio é, portanto, uma resposta direta a uma capacidade de consumo que também está em expansão.
Brasil e México: Onde o Crescimento de 4,7% e 4,4% Define o Jogo
O crescimento regional não é homogêneo. Dois mercados se destacam como os principais polos de demanda e, consequentemente, como focos estratégicos para as operações de varejo e e-commerce. O Brasil apresenta uma CAGR projetada de 4,7% para o mercado de refrigeradores entre 2026 e 2035, um ritmo que supera a média regional de 4,10%. O México, que já detém uma fatia expressiva de 27,8% do mercado latino-americano em 2025, também cresce de forma acelerada, com uma CAGR esperada de 4,4% no mesmo período. A performance superior desses dois países os posiciona como os campos de batalha primários onde as novas estratégias de e-commerce alimentar serão testadas e escaladas.
O Indicador Chave: Vendas Online de Refrigeradores Crescem a 6,6% ao Ano
Dentro dos dados de consumo, um indicador se destaca por sua relevância estratégica: o desempenho dos canais de venda. O canal de distribuição online para refrigeradores é o que apresenta o crescimento mais rápido, com uma CAGR projetada de 6,6% entre 2026 e 2035. Este número é notável por várias razões. Primeiro, ele é significativamente maior que o crescimento geral do mercado (4,10%). Segundo, ele supera até mesmo o crescimento de segmentos premium, como os refrigeradores do tipo French Door, cuja CAGR é de 4,5%.
A forte adesão do consumidor à compra online de um bem durável de alto valor, longa vida útil e logística complexa como um refrigerador é um forte indicativo de sua maturidade digital. Se os consumidores estão confortáveis realizando uma compra dessa magnitude pela internet, a barreira para adotar o e-commerce de supermercado de forma recorrente é consideravelmente menor. Esse dado de 6,6% de CAGR valida a tese de que o consumidor latino-americano está pronto para a próxima fase do varejo digital, incluindo a compra regular de alimentos congelados.
Convergência de Dados: O Que a Integração dos Mercados B2B e B2C Realmente Significa
A confluência desses fatores desenha um cenário claro e coeso. De um lado, parcerias estratégicas entre gigantes do e-commerce e do varejo físico para superar gargalos logísticos. Do outro, um forte ciclo de investimento em infraestrutura de frio comercial (CAGR de 6,8%) que é espelhado por um crescimento consistente na capacidade de armazenagem doméstica (CAGR de 4,10%) e uma rápida digitalização do comportamento de compra do consumidor (canal online com CAGR de 6,6%). A distribuição de produtos congelados está se tornando, irreversivelmente, mais complexa, mais rápida e mais digitalizada.
Para os operadores logísticos, distribuidores e redes de varejo tradicionais, a pressão por adaptação se intensifica. A questão não é mais se devem investir em tecnologia, mas quão rápido conseguem integrar soluções de gestão de armazéns (WMS), monitoramento de temperatura em tempo real e otimização de rotas de última milha. A colaboração entre players como MercadoLivre e Assaí força uma integração de sistemas e processos que antes operavam em silos, exigindo um nível de transparência e compartilhamento de dados sem precedentes.
O crescimento do mercado de câmaras frias não é apenas sobre a adição de metros cúbicos refrigerados. Trata-se da construção de uma infraestrutura mais inteligente, distribuída e ágil. A capacidade de responder à velocidade exigida pelo consumidor digital não é mais um diferencial competitivo, mas sim a nova linha de base para a sobrevivência e relevância no emergente ecossistema do varejo alimentar.