Cold chain

Mercado de congelados crescerá até 4,84% ao ano em meio a novas pressões regulatórias e de custos

O setor global de alimentos congelados opera sob uma perspectiva de crescimento contínuo e previsível, um fator que condiciona todas as decisões estratégicas na cadeia de frio. Duas análises de mercado independentes, embora com horizontes temporais distintos, convergem para uma…

R
Redação Frozen Retail Insider
Editor
Mercado de congelados crescerá até 4,84% ao ano em meio a novas pressões regulatórias e de custos
Foto de Zoshua Colah

Um Mercado de US$ 403 Bilhões: Qual a Trajetória Real do Setor de Congelados?

O setor global de alimentos congelados opera sob uma perspectiva de crescimento contínuo e previsível, um fator que condiciona todas as decisões estratégicas na cadeia de frio. Duas análises de mercado independentes, embora com horizontes temporais distintos, convergem para uma mesma conclusão: a demanda por capacidade logística refrigerada aumentará de forma ininterrupta. A primeira projeção, com visão de longo prazo, estima que o mercado, avaliado em aproximadamente US$ 280,56 bilhões em 2025, alcançará US$ 403,59 bilhões até 2032. Esta evolução corresponde a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 4,65%, um indicador de expansão estável e sustentada.

Uma segunda análise, focada em um período mais curto, projeta um avanço de US$ 311,74 bilhões em 2025 para US$ 394,93 bilhões até 2030. Nesse cenário, o CAGR é ligeiramente mais acentuado, fixado em 4,84%. A pequena variação entre as taxas (4,65% versus 4,84%) é menos relevante do que o consenso que elas representam. Ambas apontam para um acréscimo de dezenas de bilhões de dólares em valor de mercado em poucos anos, traduzindo-se diretamente em maior volume de produtos a serem armazenados, transportados e distribuídos.

A Consequência Direta: Pressão Contínua sobre a Infraestrutura

Para os operadores da cadeia de frio, esses números não são meras estatísticas, mas sim um mapa da pressão futura. O crescimento constante da demanda significa que a capacidade existente de armazenagem e transporte refrigerado será progressivamente mais exigida. Qualquer ineficiência ou gargalo na infraestrutura atual tende a ser amplificado, resultando em custos mais elevados, potenciais perdas de produto e dificuldades em atender aos contratos. A necessidade de investimentos em expansão e modernização deixa de ser uma opção estratégica para se tornar uma condição de sobrevivência e competitividade no mercado. A análise, baseada em dados de 15 de janeiro de 2026, sinaliza que a corrida por capacidade já está em andamento.

R$ 20 Bilhões e 1,4 Milhão de TEUs: A Corrida da América Latina por Capacidade Portuária

Em resposta direta à pressão da demanda global, a América Latina está executando planos de investimento robustos em sua infraestrutura portuária. Esses projetos são fundamentais para garantir o escoamento eficiente das exportações de produtos congelados e o recebimento de importações, sendo o Brasil um dos principais protagonistas desse movimento. O governo brasileiro anunciou um plano estratégico que aloca cerca de R$ 20 bilhões em investimentos até 2026, com o objetivo claro de modernizar e ampliar a capacidade de seus principais terminais.

Brasil: O Plano para Santos, Paranaguá e Rio de Janeiro

O plano de infraestrutura do Brasil concentra seus esforços em áreas portuárias de importância crítica para o comércio exterior. Estão previstas licitações para projetos de expansão e otimização nos portos de Santos, Paranaguá e Rio de Janeiro. Esses investimentos visam não apenas aumentar a capacidade de movimentação de contêineres, incluindo os refrigerados (reefers), mas também reduzir os tempos de espera dos navios e otimizar a logística terrestre conectada aos portos. A meta é transformar esses gargalos históricos em hubs mais eficientes, capazes de absorver o volume crescente projetado para os próximos anos.

Equador e Peru: A Expansão Além das Fronteiras Brasileiras

O esforço para adequar a infraestrutura não é exclusivo do Brasil, indicando uma tendência regional. No Equador, o terminal de águas profundas do Porto de Posorja passa por uma expansão significativa. O projeto visa elevar sua capacidade para aproximadamente 1,4 milhão de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) até 2026, preparando o país para competir por maiores volumes de carga na costa do Pacífico.

No Peru, o porto de Callao já demonstra os resultados de investimentos recentes. A ampliação de instalações, como o Píer Bicentenário, resultou em um aumento mensurável na movimentação de cargas. Para os distribuidores e operadores logísticos, esses projetos em toda a região representam uma dupla realidade: por um lado, a promessa de redução de gargalos e maior fluidez operacional; por outro, a exigência de se adaptar e integrar seus sistemas a operações portuárias cada vez mais digitalizadas e sofisticadas.

Sem Dados Não Há Carga: Como EUA, UE e China Fecham o Cerco Digital a Partir de 2025

Paralelamente à expansão física, uma revolução regulatória digital está em curso nos principais mercados consumidores. A partir de 2025, a capacidade de fornecer dados de rastreabilidade digitalizados e em tempo real deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma condição mandatória de acesso. Exportadores que não se adequarem correm o risco concreto de ter suas cargas rejeitadas nas fronteiras.

Nos Estados Unidos, a Regra de Rastreabilidade de Alimentos (FSMA 204), parte do Food Safety Modernization Act, estabelece a obrigatoriedade do registro digital de todos os eventos críticos na cadeia de suprimentos para uma lista específica de alimentos considerados de maior risco. Isso exige que exportadores mantenham e compartilhem registros eletrônicos detalhados sobre manuseio, processamento e transporte.

Na União Europeia, a exigência tornou-se igualmente rigorosa. Desde setembro de 2025, a apresentação de dados para o Sistema de Controle de Importação 2 (ICS2) é obrigatória. Este sistema exige informações detalhadas sobre a carga antes mesmo de sua chegada ao território do bloco, visando aprimorar a análise de risco. A Agência Canadense de Inspeção de Alimentos (CFIA) também reforçou seus requisitos em 2025, através do Regulamento de Alimentos Seguros para Canadenses (SFCR), que impõe normas estritas de licenciamento, controle preventivo e rastreabilidade para importadores. Na mesma linha, a China implementou em 2025 ajustes significativos em seu sistema de registro de exportadores, o China Import Food Enterprise Registration (CIFER), fortalecendo a digitalização e a responsabilização dos exportadores estrangeiros.

O Impacto Direto: Da Rejeição de Cargas à Necessidade de Investimento Urgente

Para os exportadores e operadores logísticos da América Latina, essa onda regulatória representa um desafio imediato e inadiável. A incapacidade de cumprir com os formatos e protocolos de dados exigidos por EUA, UE, Canadá e China pode levar à rejeição sumária de contêineres inteiros, gerando perdas financeiras diretas e danos à reputação. A conformidade exige investimentos urgentes em tecnologia, desde sensores em contêineres e armazéns até plataformas de software capazes de coletar, padronizar e transmitir dados de forma segura e auditável. A era da documentação em papel ou de sistemas digitais isolados terminou; a integração e a transparência de dados são os novos pré-requisitos para participar do comércio global de alimentos.

O Custo do Carbono: Como o EU ETS2 e o SBCE Brasileiro Vão Impactar o Frete Refrigerado

Além da digitalização, a agenda de descarbonização está se consolidando como um fator de custo direto e explícito na logística da cadeia de frio. A sustentabilidade deixou o campo do marketing para entrar na planilha de custos operacionais, impulsionada por novas regulações de precificação de carbono.

EU ETS2: A Taxa de Carbono Europeia Chega ao Frete Marítimo

Um dos movimentos mais significativos é a inclusão do setor de transporte marítimo no Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (EU ETS2). Essa medida obriga as companhias de navegação que operam em portos europeus a comprar licenças para suas emissões de gases de efeito estufa. Na prática, isso impõe um custo direto sobre a intensidade de carbono de cada viagem. Para o setor de alimentos congelados, que depende de contêineres refrigerados com alto consumo de energia, o impacto é direto. O custo adicional do frete para a Europa precisará ser absorvido em algum ponto da cadeia de valor, seja pelo exportador, pelo importador ou, em última instância, repassado ao consumidor final.

SBCE: O Brasil Sinaliza a Precificação de Emissões no Mercado Interno

Seguindo a tendência global, o Brasil também se moveu para criar seu próprio mercado regulado de carbono com o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Embora os detalhes de sua implementação e os setores que serão inicialmente regulados ainda estejam em fase de definição, a criação do sistema é um sinal claro da direção política. A existência do SBCE indica que, em breve, os custos relacionados às emissões se tornarão uma realidade também nas operações domésticas. Isso afetará diretamente a logística da cadeia de frio interna, incluindo o transporte rodoviário de longa distância e o consumo de energia em centros de distribuição e armazéns refrigerados.

Para os gestores de distribuição e logística, o planejamento de rotas, a eficiência energética da frota de caminhões e a gestão do consumo elétrico dos armazéns ganham uma nova dimensão financeira. A otimização de emissões passa a ser não apenas uma meta de sustentabilidade, mas uma estratégia fundamental para o controle de custos e a manutenção da competitividade em um mercado cada vez mais regulado.