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Incerteza do USMCA e foco em eficiência marcam a logística de frio em 2026

A renovação do acordo USMCA em julho gera cautela nos investimentos na América do Norte, abrindo uma potencial janela para exportadores de proteína da América do Sul, enquanto líderes do setor apostam em tecnologia para garantir resiliência.

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Ricardo Almeida
Editor
Incerteza do USMCA e foco em eficiência marcam a logística de frio em 2026
Foto de Elvira Syamsir

25% das Exportações Globais de Alimentos: Como a América Latina Navega um Cenário de Risco em 2026?

A América Latina consolida-se como um pilar fundamental no abastecimento alimentar global, respondendo por 25% de todas as exportações de alimentos do planeta. Este volume posiciona a região não apenas como um grande produtor, mas como um fornecedor crítico cuja estabilidade operacional tem repercussões diretas nas cadeias de abastecimento internacionais. Contudo, o ano de 2026 avança sobre um terreno marcado por instabilidade geopolítica e pela iminente revisão de acordos comerciais, fatores que impõem uma camada de complexidade e risco para operadores logísticos, distribuidores e, em especial, para o setor de produtos congelados.

A volatilidade do ambiente operacional é um dado concreto, sublinhado por relatórios de situação focados na disrupção causada pelo conflito no Oriente Médio, publicados em 2 de março e 5 de abril de 2026. Para os gestores da cadeia de frio na América Latina, estes eventos não são distantes. Eles se traduzem em custos de frete mais elevados, reconfiguração de rotas marítimas e um aumento geral da incerteza. A capacidade de monitorizar e interpretar estas dinâmicas externas tornou-se uma competência central, essencial para a mitigação de riscos e para a capitalização de oportunidades que surgem em cenários de disrupção.

Julho de 2026: Por Que a Renovação do USMCA Já Está a Congelar Projetos de Capital?

O ponto de maior atenção para os fluxos comerciais interamericanos em 2026 é a renovação do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), agendada para julho. A incerteza em torno dos termos finais desta renovação não é uma preocupação futura; os seus efeitos já são tangíveis, manifestando-se na paralisação de investimentos estratégicos em infraestrutura logística. Esta hesitação ameaça a fluidez das cadeias de abastecimento que conectam as Américas.

O Efeito Cascata da Incerteza: O Alerta de Greg Laurin

A retração do investimento é uma realidade confirmada por líderes do setor. Greg Laurin, Presidente da Conestoga Cold Storage, descreve um cenário de paralisia preventiva. Segundo ele, já se observa "projetos em ambos os lados da fronteira adiados ou cancelados por empresas relutantes em se comprometer com despesas de capital significativas". Esta declaração evidencia um congelamento de capital que vai além da simples cautela. A falta de clareza sobre as futuras regras de comércio, tarifas e regulações impede que as empresas justifiquem investimentos de longo prazo em armazéns, centros de distribuição e tecnologia. O impacto direto recai sobre a capacidade de armazenamento e os custos de distribuição transfronteiriços, afetando toda a cadeia que se estende da América do Sul ao Canadá. A falta de novas infraestruturas pode criar gargalos e aumentar os custos operacionais para os exportadores latino-americanos que dependem da rede norte-americana para chegar ao consumidor final.

Uma Janela de Oportunidade para a Proteína Sul-Americana?

Paradoxalmente, a mesma cautela que freia os investimentos no mercado norte-americano pode gerar uma oportunidade para os produtores e exportadores da América do Sul. A análise de Laurin aponta para esta dualidade. Ele especifica que, "se os produtores domésticos [norte-americanos] não conseguirem atender a essa demanda no curto prazo, os volumes de importação de proteínas da América do Sul – e até mesmo de carne bovina e de cordeiro de lugares tão distantes como a Austrália – provavelmente continuarão a crescer".

Esta potencial lacuna na oferta norte-americana, causada pela hesitação em expandir a capacidade interna, abre uma porta para os exportadores de carne bovina, suína e de aves do Brasil, Argentina e outros países da região. Para os distribuidores e operadores 3PL latino-americanos, isto representa um sinal claro: a demanda por capacidade de armazenamento e transporte qualificados para exportação pode aumentar significativamente. A capacidade de responder com agilidade a este aumento de procura será um diferenciador competitivo crucial nos próximos meses.

Mais do que Custos: Como a Gestão de Energia se Tornou a Nova Fronteira da Resiliência

Num contexto de custos operacionais voláteis, pressões regulatórias por sustentabilidade e uma rede energética por vezes instável, a gestão de energia deixou de ser um item secundário de controlo de despesas para se tornar um pilar estratégico da resiliência operacional. Para os operadores de armazéns frigorificados, onde a energia pode representar uma das maiores fatias dos custos, a otimização do consumo é agora uma questão de sobrevivência e competitividade.

A Visão da Lineage: IA e Controles Inteligentes Contra a Volatilidade

Adam Forste, Co-Presidente da Lineage, articula esta mudança de paradigma de forma precisa. "A eficiência energética não é mais apenas sobre gestão de custos; é sobre resiliência", afirma. A sua análise detalha a aplicação de tecnologia avançada como resposta direta às incertezas do mercado. Forste explica que "controles de refrigeração mais inteligentes, gestão de energia habilitada por IA e ferramentas que respondem dinamicamente à demanda, ao clima e às condições da rede elétrica podem reduzir significativamente o uso de energia, mantendo ao mesmo tempo a integridade rigorosa da temperatura e fortalecendo o tempo de atividade durante picos de carga, estresse na rede e eventos de disrupção".

Esta abordagem transforma o armazém de um consumidor passivo de energia num participante ativo e inteligente da rede. A capacidade de modular o consumo em tempo real não só reduz custos, mas também garante a continuidade das operações durante falhas na rede ou picos de preço, protegendo a integridade dos produtos armazenados e a fiabilidade do serviço ao cliente.

SuperFrio e o Ponto de Inflexão de 2026 no Brasil

Esta visão estratégica é partilhada por líderes no mercado brasileiro. Francisco Moura, CEO da SuperFrio Logistica Frigorificada, enquadra o ano corrente como um momento decisivo para o setor. "Em essência, 2026 é um ano crucial para o armazenamento a frio: uma oportunidade de liderar através da tecnologia, sustentabilidade, preparação climática e ao habilitar as necessidades em evolução das cadeias de abastecimento de alimentos", declara Moura.

A sua declaração reforça que os investimentos locais estão alinhados com a tendência global de modernização e adaptação. A menção à "preparação climática" indica uma consciência crescente de que eventos climáticos extremos podem impactar tanto a produção de alimentos quanto a infraestrutura logística. As empresas que investem agora em tecnologia e sustentabilidade não estão apenas a otimizar as suas operações atuais, mas a construir uma base mais robusta para suportar os desafios e as oportunidades futuras, incluindo a crescente demanda de exportação.

Do Porto ao Campo: Os Dois Eixos do Investimento em Infraestrutura de Frio

Para que a América Latina possa efetivamente converter as oportunidades de exportação em crescimento sustentado, o desenvolvimento de uma infraestrutura de frio moderna e eficiente é um pré-requisito indispensável. Os investimentos atuais estão a ser direcionados em duas frentes complementares: a expansão de grandes centros logísticos em pontos estratégicos e a implementação de soluções para fortalecer a base da cadeia produtiva, no campo.

A Expansão da Emergent Cold: Modernização em Pontos-Chave da Rede

O investimento em infraestrutura de grande escala é visível no movimento de empresas como a Emergent Cold LatAm. Rafael Rocha, Vice-Presidente Sênior da companhia, confirma a estratégia de expansão e modernização focada em áreas críticas. Segundo Rocha, a empresa "está construindo instalações modernas nessas áreas-chave em toda a nossa rede". Este tipo de investimento é vital. "Áreas-chave" referem-se tipicamente a regiões próximas de grandes centros de produção agrícola e pecuária, bem como a localizações estratégicas perto de portos de exportação. Instalações modernas significam mais do que apenas maior capacidade de armazenamento; implicam maior eficiência energética, sistemas de gestão mais sofisticados e conformidade com os rigorosos padrões internacionais de segurança alimentar, que são essenciais para aceder a mercados exigentes.

O Elo Perdido: Soluções Modulares para Reduzir a Perda na Origem

Um dos desafios históricos da cadeia de frio na região é a perda de qualidade que ocorre logo no início do processo, no ponto de coleta, especialmente entre pequenos e médios produtores. A falta de refrigeração adequada na "primeira milha" pode comprometer o valor e a vida útil do produto. Dr. Matope identifica uma solução pragmática para este problema, destacando o "potencial em fornecer soluções de armazenamento a frio e pré-resfriamento modulares e escaláveis no ponto de coleta, capacitando pequenos agricultores e reduzindo a perda inicial de qualidade".

A implementação destas tecnologias modulares representa um investimento de impacto. Ao permitir o pré-resfriamento rápido de frutas, vegetais e outros perecíveis diretamente na fazenda ou na cooperativa, garante-se que o produto entre na cadeia logística principal com a sua qualidade máxima preservada. Isto não só reduz o desperdício de alimentos, mas também aumenta a rentabilidade para os produtores e fortalece a competitividade das exportações latino-americanas, garantindo um produto final de maior valor agregado.

2026: Um Ano de Decisões Estratégicas para a Cadeia de Frio Latino-Americana

O ano de 2026 desenha-se como um período de teste e oportunidade para o setor logístico de frio da América Latina. A posição da região como detentora de 25% das exportações globais de alimentos é um ativo poderoso, mas que opera num ambiente de riscos externos tangíveis, desde a incerteza comercial do USMCA à instabilidade geopolítica global. A resposta do setor não tem sido a paralisia, mas sim uma aceleração em investimentos estratégicos.

As decisões tomadas este ano irão definir os líderes do mercado nos próximos anos. A convergência de investimentos em resiliência operacional, através da tecnologia e da gestão inteligente de energia, com a expansão de infraestruturas físicas — tanto nos grandes hubs logísticos quanto na base da produção agrícola — está a criar uma cadeia de abastecimento mais robusta e adaptável. As empresas que navegam com sucesso esta complexidade, equilibrando a cautela com investimentos direcionados, estarão mais bem posicionadas para capturar o valor gerado pelas dinâmicas do comércio global de alimentos.