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Exportações e política impulsionam crescimento de 57% na cadeia de frio da América Latina

O aumento dos volumes de exportação de proteínas e frutas, combinado com políticas comerciais como o PACIC no México, está a impulsionar um crescimento significativo na infraestrutura de armazenagem a frio, com operadores como a Polarport a registar um aumento de 57% no volume.

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Ricardo Almeida
Editor
Exportações e política impulsionam crescimento de 57% na cadeia de frio da América Latina
Foto de ANNIE HATUANH

A Regra 80/20: Como o Comércio Exterior Dita o Ritmo da Cadeia de Frio na América Latina

A dinâmica da cadeia de frio na América Latina é definida por uma forte e inequívoca orientação para o comércio exterior, que, direta ou indiretamente, representa a maior parte da demanda por armazenagem e logística refrigerada. Esta estrutura de mercado, combinada com a posição de liderança da região em várias categorias de exportação de alimentos, está a gerar um crescimento mensurável na atividade de infraestrutura, exigindo investimentos direcionados em eficiência operacional e expansão de capacidade. Para compreender a trajetória do setor, é fundamental analisar a composição da sua demanda, os principais motores de exportação e a resposta estratégica dos operadores logísticos às pressões de volume e eficiência. A análise dos dados operacionais e das políticas comerciais revela um mercado em plena aceleração, onde a capacidade de gerir fluxos internacionais é o principal fator de sucesso.

O Balanço da Demanda: 40% Exportação, 40% Distribuição Local, 20% Importação

A estrutura da demanda por capacidade de frio na região é um reflexo direto do seu papel duplo como fornecedor global e mercado consumidor em desenvolvimento. Rafa Rocha, Vice-Presidente Sénior Comercial da Emergent Cold LatAm, oferece uma repartição quantitativa que clarifica esta dinâmica. A sua análise mostra uma dependência significativa dos fluxos comerciais internacionais, complementada por uma robusta rede de distribuição interna.

Segundo Rocha, a composição é clara. “Na América Latina, estimamos que 40% da demanda é para exportações, 20% vem de países que importam para consumo doméstico, e os restantes 40% são para a distribuição da produção local”, afirma. Esta divisão 40/40/20 sublinha um equilíbrio funcional. Os primeiros 40%, destinados à exportação, representam o motor primário do setor, gerando a necessidade de infraestruturas portuárias, armazéns de consolidação e serviços logísticos de longa distância. Este segmento é alimentado pelas potências agrícolas e de proteína da região.

Os outros 40%, dedicados à distribuição da produção local dentro dos próprios países, sustentam as cadeias de retalho e de food service domésticas. Este componente, embora menos dependente das flutuações do comércio global, exige uma rede capilar e eficiente para garantir que os produtos cheguem aos consumidores finais com a qualidade intacta. Finalmente, os 20% restantes da demanda provêm de produtos importados para consumo interno. Este segmento, embora menor em proporção, é altamente sensível a políticas comerciais, acordos bilaterais e taxas de câmbio, que podem alterar rapidamente os volumes e as rotas logísticas. O caso do México e da sua política PACIC é um exemplo atual de como as decisões governamentais podem influenciar diretamente este fluxo de importação, criando novas oportunidades e desafios para os operadores.

Os Motores da Exportação: 2,9M de Toneladas de Carne e US$ 10B em Hortifrúti

A força exportadora da região é o pilar que sustenta grande parte da atividade da cadeia de frio. Países específicos consolidaram-se como líderes globais no fornecimento de proteínas e produtos agrícolas, gerando volumes consistentes que requerem uma infraestrutura logística robusta e especializada para manusear produtos congelados e refrigerados em grande escala.

Brasil, Argentina e Paraguai: O Eixo da Proteína Bovina e de Aves

O Brasil, juntamente com os seus vizinhos Argentina e Paraguai, continua a ser um líder indiscutível nas exportações de carne bovina. As projeções para o mercado indicam que esta tendência não só se manterá como se intensificará. Especificamente, espera-se que o Brasil envie mais de 2,9 milhões de toneladas métricas de carne bovina em 2025. Este volume massivo de proteína congelada é a base da demanda por armazenagem e transporte especializado na região do Cone Sul. Adicionalmente, o Brasil mantém a sua posição como o maior exportador mundial de carne de aves, o que diversifica e reforça a sua importância estratégica para a cadeia de frio global. A necessidade de manter temperaturas controladas desde o processamento até ao porto de embarque cria uma demanda contínua por capacidade de armazenagem e serviços de transporte fiáveis.

Chile, Peru e Equador: O Corredor do Pacífico com 700.000 Toneladas de Salmão

Na costa do Pacífico, a aquicultura e a fruticultura formam um pilar complementar de exportação. As exportações de salmão provenientes do Chile, Peru e Equador somam mais de 700.000 toneladas métricas anuais, um volume significativo que requer uma logística de frio de alta precisão para servir mercados exigentes na América do Norte, Europa e Ásia. O Chile, em particular, demonstra uma notável diversificação. Além do salmão, o país destaca-se como um líder nas exportações de fruta, especialmente para mercados de alto valor como os Estados Unidos e a China. Esta dupla especialização em produtos do mar e hortifrutícolas gera uma demanda complexa e sazonal por serviços de frio, que devem ser capazes de manusear diferentes tipos de produtos com requisitos de temperatura distintos.

México: O Fornecedor de US$ 10 Bilhões para a América do Norte

A posição geográfica do México e os seus acordos comerciais conferem-lhe um papel único na cadeia de frio regional. O país fornece anualmente mais de 10 mil milhões de dólares em exportações de produtos frescos, principalmente para os seus vizinhos do norte. Este fluxo comercial é fortemente alavancado pelo acordo USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá), que facilita o trânsito de mercadorias e cria uma corrente comercial constante e previsível. A proximidade com o mercado consumidor dos EUA exige uma cadeia de frio extremamente eficiente e rápida para manter a qualidade e o frescor de produtos perecíveis como bagas, abacates e tomates, desde as quintas mexicanas até às prateleiras dos supermercados americanos.

O Efeito nos Terminais: Como o Aumento do Comércio se Traduz em Crescimento de 57%

O aumento dos fluxos comerciais, tanto de exportação como de importação, tem um efeito direto e quantificável sobre a atividade dos operadores logísticos. Os dados operacionais de terminais específicos no início de 2025 servem como um barómetro preciso deste aquecimento do mercado, ilustrando como o crescimento macroeconómico se materializa em volumes físicos movimentados. Abel Fernández Burgos, Diretor de Negócios Logísticos da Polarport, reporta um aumento significativo na atividade das suas operações no México e na Guatemala.

Veracruz e Guatemala: Termómetros do Aumento da Movimentação

Os números da Polarport fornecem uma visão concreta da aceleração em curso. A operação da empresa em Veracruz, um porto estratégico no Golfo do México, registou um crescimento de 57% no período de janeiro a fevereiro de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. Este é um indicador robusto de um aumento acentuado na movimentação de produtos que necessitam de temperatura controlada. Simultaneamente, na Guatemala, a operação da Polarport em Frío Maya cresceu 20% no mesmo período. Embora mais moderado, este crescimento ainda aponta para uma tendência positiva e consistente na América Central. Juntos, estes dados indicam que a demanda por serviços de cadeia de frio não está apenas a crescer, mas a acelerar em pontos-chave da rede logística regional.

A Política PACIC: Um Catalisador Inesperado para os Portos Mexicanos?

Parte do crescimento excecional observado no México pode ser atribuída a uma iniciativa governamental específica: o PACIC (Pacote Contra a Inflação e a Carestia). Esta política, desenhada para controlar a inflação interna, permite a importação de carne de países que não os Estados Unidos sem a aplicação de impostos. Na prática, esta medida diversificou as origens da carne importada pelo México, abrindo o mercado a fornecedores da América do Sul e de outras regiões. A expectativa no setor é que o PACIC continue em vigor até 2026, o que sugere uma oportunidade sustentada para os operadores logísticos que manuseiam produtos de proteína importados. A política está a reconfigurar os fluxos comerciais, potencialmente aumentando os volumes totais que transitam pelos portos mexicanos e beneficiando operadores como a Polarport, que estão posicionados para gerir esta nova demanda.

A Resposta Estratégica: Porquê a Semi-Automação é o Próximo Passo

Perante o aumento da demanda e a necessidade premente de maior eficiência, as empresas de armazenagem a frio estão a reavaliar as suas operações e a investir em tecnologia. A automação, em particular a semi-automação, surge como uma resposta estratégica para gerir maiores volumes, reduzir custos operacionais e mitigar a escassez de mão-de-obra. Este movimento não é apenas uma atualização tecnológica, mas uma adaptação necessária às realidades de um mercado em expansão.

IceStar e o Investimento em Eficiência Cúbica e Velocidade

A IceStar é um exemplo desta tendência. Francisco Moura, CEO da empresa, confirmou que a sua organização tem vindo a investir ativamente em armazéns semiautomatizados. A lógica por trás desta decisão é multifacetada. Este tipo de investimento visa aumentar a velocidade de movimentação de paletes, um fator crítico quando se lida com os grandes volumes gerados pela exportação de commodities e pela distribuição de retalho. Além disso, a semi-automação ajuda a reduzir erros operacionais, que podem ser dispendiosos em ambientes de temperatura controlada, e a otimizar o uso do espaço cúbico, permitindo uma maior densidade de armazenagem na mesma área construída.

A decisão de investir em tecnologia reflete uma compreensão clara de que a capacidade de manusear grandes volumes de forma rápida e precisa é um diferenciador competitivo fundamental. Num mercado impulsionado por exportações de milhões de toneladas de produtos perecíveis, a eficiência operacional não é um luxo, mas uma condição essencial para a sobrevivência e o crescimento. A adoção de sistemas semiautomatizados representa, portanto, uma evolução natural para os operadores que procuram alinhar a sua capacidade de infraestrutura com as exigências crescentes dos seus clientes e do mercado global.