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Análise do Varejo de Congelados: Consumo per capita e o avanço do e-commerce no Brasil

A entrada da Amazon Fresh no mercado brasileiro de entrega de supermercado, oficializada em 2024 através de uma parceria estratégica com a plataforma local Jüsto, estabelece um novo vetor de competição para a cadeia de frio. A oferta de entrega de produtos de supermercado,…

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Redação Frozen Retail Insider
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Análise do Varejo de Congelados: Consumo per capita e o avanço do e-commerce no Brasil
Foto de Martijn Baudoin

A nova fronteira da cadeia de frio: como a entrada da Amazon Fresh testa a logística de congelados no Brasil

A entrada da Amazon Fresh no mercado brasileiro de entrega de supermercado, oficializada em 2024 através de uma parceria estratégica com a plataforma local Jüsto, estabelece um novo vetor de competição para a cadeia de frio. A oferta de entrega de produtos de supermercado, incluindo congelados, em um prazo de até 4 horas em áreas selecionadas, ataca diretamente um dos principais gargalos logísticos do setor. Esta movimentação não é apenas uma expansão de serviço, mas uma aposta calculada para capitalizar sobre tendências de consumo que se consolidaram no país, colocando em xeque a capacidade de resposta dos players tradicionais. A viabilidade de tal operação depende criticamente da eficiência na última milha, um segmento onde a manutenção da temperatura é tão importante quanto a velocidade da entrega.

Por que o alvo são os 87% da população que vivem em cidades?

A estratégia de focar em entregas ultrarrápidas encontra um terreno fértil no perfil demográfico brasileiro. Com mais de 87% da população residindo em áreas urbanas, o Brasil oferece a densidade populacional necessária para que modelos de quick commerce sejam economicamente viáveis. A concentração de consumidores em metrópoles permite otimizar rotas de entrega, reduzir o tempo de trânsito e maximizar o número de pedidos por veículo, diluindo os altos custos fixos associados à logística refrigerada. Este movimento é uma resposta direta às mudanças de comportamento aceleradas durante a pandemia de 2020-2021, um período que funcionou como um catalisador para a aceitação e a compra de alimentos congelados por uma base de consumidores significativamente maior e mais diversificada. A conveniência prometida pela Amazon e Jüsto visa capturar exatamente este consumidor urbano, que agora valoriza o tempo e a praticidade tanto quanto o preço.

O legado de 2020-2021: como a pandemia normalizou o consumo de congelados

O período pandêmico foi um momento pivotal que impulsionou a adoção de alimentos congelados em uma escala sem precedentes. A necessidade de estocar alimentos para reduzir a frequência de idas ao supermercado, combinada com a busca por refeições práticas durante o home office, aumentou drasticamente a penetração da categoria nos lares brasileiros. O que começou como uma medida de necessidade evoluiu para um hábito de conveniência. Agora, a combinação desse hábito adquirido com a sofisticação da infraestrutura de e-commerce grocery, como a oferecida pela nova parceria, cria um teste de estresse para toda a cadeia de distribuição. O desafio técnico e de custo para manter a integridade do produto na última milha é significativo. Para distribuidores e varejistas estabelecidos, a questão imediata é como integrar ou competir com esses novos modelos de entrega expressa, que redefinem as expectativas do consumidor em relação à velocidade e à disponibilidade de produtos congelados.

O paradoxo do consumo: por que o Brasil consome 30% menos vegetais congelados que a Argentina?

Apesar do potencial de crescimento e da recente aceleração digital, os números de consumo per capita no Brasil revelam um mercado que ainda opera abaixo de seus pares regionais. O consumo de vegetais congelados no Brasil estabilizou-se em um patamar entre 5 a 6 kg por pessoa anualmente nos últimos anos. Este número, embora represente um volume considerável, contrasta fortemente com o mercado argentino. A Argentina exibe uma das maiores taxas de consumo da América Latina, com um volume que ultrapassa os 8 kg por pessoa ao ano. A diferença de mais de 30% aponta para barreiras culturais, de preço ou de acesso que ainda limitam a expansão da categoria no Brasil. O México, por sua vez, apresenta um consumo mais modesto, estimado em aproximadamente 4 kg anuais por pessoa, posicionando o Brasil em um nível intermediário, mas com um potencial de crescimento que se aproxima mais do cenário argentino do que do mexicano.

Frutas congeladas: a categoria de menos de 1 kg que o varejo ainda não explorou

O desafio de penetração de mercado é ainda mais acentuado na categoria de frutas congeladas. O consumo per capita no Brasil permanece bem abaixo de 1 kg por ano, um número que indica uma presença quase residual do produto no varejo e nos hábitos de consumo diário. Este dado é particularmente paradoxal, considerando que o Brasil é um dos maiores produtores de frutas do mundo. A baixa performance da categoria sugere uma desconexão entre a capacidade de produção agrícola e a estratégia de mercado para o produto final congelado. Para os gerentes de categoria nos supermercados, isso representa tanto uma oportunidade inexplorada quanto um complexo desafio de marketing. Desenvolver o segmento exige investimentos em educação do consumidor sobre os usos e benefícios das frutas congeladas, além de um esforço coordenado com a indústria para garantir variedade, qualidade e um ponto de preço competitivo.

A monocracia da batata: como um único produto define 90% do mercado de vegetais congelados

Uma análise da composição da categoria de vegetais congelados na gôndola revela uma dependência extrema de um único produto. Em toda a América Latina, as batatas congeladas, principalmente no formato pré-frito, representam entre 80% e 90% de todo o volume de vegetais congelados comercializado. Essa concentração massiva em um único SKU (Stock Keeping Unit) tem implicações diretas e profundas para toda a cadeia de valor, desde o produtor agrícola até o consumidor final. A estrutura do mercado é, na prática, definida pela demanda por batatas, com todos os outros vegetais ocupando um espaço marginal.

O dilema do distribuidor: eficiência volumétrica versus risco de mercado

Para os distribuidores, a alta volumetria da batata simplifica a logística em alguns aspectos. Lidar com um produto de alto giro e demanda previsível permite otimizar o armazenamento e o transporte. No entanto, essa mesma característica cria uma vulnerabilidade sistêmica. A cadeia torna-se excessivamente exposta a flutuações na safra, nos custos de importação e nos preços de um único item. Qualquer choque de oferta ou demanda na cadeia da batata impacta desproporcionalmente todo o setor de vegetais congelados. A falta de diversificação significa que os distribuidores têm poucas alternativas para mitigar riscos ou para buscar crescimento em outros nichos de produtos com margens potencialmente mais altas.

O desafio da gôndola: espaço limitado e a inércia do varejo

Para os varejistas, o desafio é gerenciar o ativo mais escasso e caro da seção de congelados: o espaço de gôndola no freezer. A dominância esmagadora da batata nas vendas justifica, do ponto de vista puramente comercial, a alocação de uma grande porcentagem do espaço para este produto. Contudo, essa lógica cria uma barreira de entrada para outros vegetais congelados, como brócolis, couve-flor, ervilhas ou mix de legumes. Embora esses itens possam oferecer margens de lucro superiores, seus volumes de venda são incertos e exigem um esforço de promoção para ganhar tração. A diversificação da oferta no ponto de venda é um passo crucial para expandir o consumo geral da categoria, mas depende de uma disposição do varejista em assumir o risco inicial de sacrificar espaço de um produto de alto giro para testar alternativas com potencial de crescimento a longo prazo.

Capacidade ociosa? As 150.000 toneladas de produção nacional e o desafio da diversificação

O mercado brasileiro de congelados não depende exclusivamente de importações para ser abastecido. O país possui uma capacidade produtiva doméstica considerável de frutas e vegetais congelados, que atingiu um volume de aproximadamente 150.000 toneladas métricas em 2021. Essa capacidade interna é um ativo estratégico fundamental, pois permite maior controle sobre a oferta, reduz a exposição a variações cambiais e possibilita o desenvolvimento de produtos mais alinhados ao gosto e às necessidades do consumidor local. A existência dessa infraestrutura industrial prova que a barreira ao crescimento não é a falta de capacidade de processamento.

A questão central para a indústria, portanto, é como essa capacidade produtiva está sendo utilizada. A maior parte dela ainda é direcionada para o processamento de batatas, refletindo a demanda concentrada do varejo. O crescimento sustentável do mercado de congelados no Brasil dependerá da habilidade dos produtores, distribuidores e varejistas em colaborarem para introduzir, promover e tornar acessíveis outras variedades de produtos. Quebrar a dependência atual da batata é essencial para elevar o consumo per capita para níveis mais próximos aos de mercados como o argentino. A iniciativa da Amazon Fresh, ao operar com um modelo de "gôndola infinita" online e logística ágil, pode ser um dos catalisadores para essa mudança. Ao facilitar o acesso do consumidor a uma gama mais ampla de produtos sem a restrição do espaço físico do freezer, a plataforma pode ajudar a criar demanda para novos itens e, por consequência, estimular a diversificação da produção nacional.