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Amazon vs. MercadoLivre: Disputa por supermercados impulsiona mercado de frio de US$ 3 bi

A competição pelo consumidor de supermercado no ambiente digital brasileiro se intensifica, materializada em duas abordagens estratégicas fundamentalmente distintas. De um lado, a Amazon busca acelerar sua entrada no setor por meio de parcerias táticas que minimizam o…

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Redação Frozen Retail Insider
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Amazon vs. MercadoLivre: Disputa por supermercados impulsiona mercado de frio de US$ 3 bi
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Amazon vs. MercadoLivre: Duas Estratégias Disputam o Supermercado Digital no Brasil

A competição pelo consumidor de supermercado no ambiente digital brasileiro se intensifica, materializada em duas abordagens estratégicas fundamentalmente distintas. De um lado, a Amazon busca acelerar sua entrada no setor por meio de parcerias táticas que minimizam o investimento de capital inicial. Do outro, o MercadoLivre aprofunda a integração logística, trazendo a operação de supermercado para dentro de seu ecossistema já estabelecido. Ambos os movimentos, analisados em um artigo de Daniel Ceanu de 29 de fevereiro de 2024, convergem para um mesmo ponto de pressão: a crescente e inadiável demanda por serviços de cadeia de frio, desde a armazenagem em larga escala até a entrega na última milha.

A escolha de cada empresa reflete filosofias diferentes sobre controle, velocidade de entrada no mercado e alocação de capital. Enquanto uma opta por uma estrutura variável e dependente de terceiros, a outra aposta na verticalização como forma de garantir a qualidade da experiência do cliente e capturar uma fatia maior da cadeia de valor. O resultado dessa disputa definirá não apenas o líder do segmento, mas também o perfil da infraestrutura logística que será construída para suportá-lo.

Por que a Amazon Terceiriza a Última Milha Refrigerada?

A Amazon optou por um modelo que utiliza a infraestrutura de terceiros para sua operação Amazon Now no Brasil. A decisão de firmar uma parceria com a Rappi para as entregas de supermercado é um cálculo estratégico que prioriza a velocidade de implementação sobre o controle operacional direto. Esta abordagem permite que a Amazon ofereça um serviço de entrega rápida de produtos frescos, resfriados e congelados sem incorrer nos custos e no tempo associados à construção de uma rede logística própria de cadeia de frio.

O Modelo Asset-Light: Velocidade em Troca de Controle

Ao delegar a última milha à Rappi, a Amazon adota uma estratégia "asset-light" (com poucos ativos). A principal vantagem é a agilidade. A empresa consegue acessar imediatamente a rede de entregadores e a expertise em logística urbana da Rappi, evitando o investimento direto em uma frota refrigerada própria, em centros de distribuição de ultraproximidade (micro-hubs) ou na contratação de pessoal para a entrega. Esta decisão transfere a complexidade da logística de produtos com temperatura controlada para o parceiro. A gestão de embalagens térmicas, o monitoramento da temperatura durante o transporte e a otimização de rotas para entregas rápidas tornam-se responsabilidade da Rappi e de seus operadores logísticos associados.

A Dependência do Parceiro e a Nova Demanda Logística

A contrapartida dessa agilidade é a dependência. A qualidade da experiência do cliente final, um pilar central da marca Amazon, fica parcialmente nas mãos de um terceiro. Qualquer falha na operação da Rappi — seja um atraso na entrega ou uma quebra na cadeia de frio que comprometa a qualidade do produto — impacta diretamente a percepção do consumidor sobre o serviço Amazon Now. Para o mercado logístico, essa parceria cria uma nova camada de demanda. Operadores que prestam serviços para a Rappi agora enfrentam a necessidade de expandir sua capacidade e eficiência para atender aos volumes e aos padrões de serviço exigidos por um cliente do porte da Amazon. A demanda por veículos refrigerados de pequeno porte e por pequenos espaços de consolidação refrigerados em áreas urbanas densas tende a aumentar.

MercadoLivre Internaliza: O Custo do Controle Total

O MercadoLivre, em sua colaboração com o atacadista Assaí, segue um caminho oposto. A estratégia consiste em integrar os produtos de supermercado diretamente à sua robusta infraestrutura de marketplace e logística, o Mercado Envios. Neste modelo, o armazenamento, a separação dos pedidos (picking) e a entrega tornam-se parte integrante da oferta de valor do próprio MercadoLivre, em vez de serem delegados a um parceiro de última milha. Trata-se de um movimento de verticalização que busca internalizar a maior parte possível da cadeia de valor.

Integrando o Supermercado ao Ecossistema Existente

A abordagem do MercadoLivre é consistente com sua estratégia histórica de construir um ecossistema completo em torno de sua plataforma. Ao trazer a operação de supermercado para dentro de casa, a empresa pode alavancar seus centros de fulfillment já existentes, adaptando-os para incluir áreas de temperatura controlada. Isso permite um controle granular sobre todo o processo, desde a gestão de estoque nos armazéns até a otimização da rota de entrega final. A integração com o Assaí funciona como uma fonte de abastecimento em escala, permitindo que o MercadoLivre ofereça um sortimento amplo de produtos a preços competitivos, mantendo o controle sobre a logística.

O Desafio do Capex e o Domínio sobre a Experiência

A verticalização implica um investimento de capital (Capex) significativamente maior. O MercadoLivre precisa investir diretamente — ou contratar em larga escala — em soluções de armazenagem refrigerada e transporte com temperatura controlada. Isso inclui a construção ou adaptação de grandes câmaras frias em seus centros de distribuição e o desenvolvimento de uma frota de entrega capaz de manter a integridade de produtos congelados e resfriados. O retorno esperado para esse investimento é o controle total sobre a experiência do cliente. A empresa pode garantir prazos de entrega, a qualidade dos produtos e a eficiência do serviço, transformando a logística em um diferencial competitivo direto, em vez de uma função terceirizada.

A Infraestrutura de US$ 1,6 Bilhão que Alimenta a Batalha do E-commerce

A competição no varejo digital não ocorre no vácuo. Ela é sustentada por um mercado robusto e em expansão de infraestrutura física. A análise da indústria de câmaras frias e freezers walk-in na América Latina quantifica a base material sobre a qual as estratégias de e-commerce de Amazon e MercadoLivre estão sendo construídas. Os planos de ambas as empresas dependem diretamente da disponibilidade e da modernização dessa infraestrutura.

Projeção de Quase Dobrar para US$ 3,0 Bilhões até 2035

As projeções de mercado indicam que o setor de câmaras frias e freezers na região está estimado em US$ 1,6 bilhão em 2025. A expectativa é que este mercado atinja US$ 3,0 bilhões até 2035. Este crescimento projetado não é especulativo; ele reflete uma demanda estrutural impulsionada pela modernização do varejo tradicional e, de forma cada vez mais acentuada, pelas novas exigências do comércio eletrônico de alimentos. A necessidade de armazenar produtos perecíveis mais perto do consumidor final e de garantir a integridade da cadeia de frio de ponta a ponta é o principal motor desse investimento.

Um Crescimento Anual Composto de 6,8%

O avanço é projetado para ocorrer a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 6,8% durante o período de 2025 a 2035. Este ritmo constante sinaliza um ciclo de investimento de longo prazo. Não se trata de uma expansão volátil, mas de uma adaptação estrutural da cadeia de suprimentos da região. Para fabricantes de painéis isotérmicos, sistemas de refrigeração, portas industriais e tecnologias de monitoramento, assim como para construtores e operadores de armazéns refrigerados, este crescimento representa uma oportunidade de negócio direta e sustentada ao longo da próxima década.

Impactos na Cadeia de Frio: Onde o Investimento Será Necessário?

As diferentes abordagens de Amazon e MercadoLivre geram impactos distintos e criam oportunidades específicas para distribuidores, operadores logísticos (3PLs) e o varejo em geral. A escolha entre o modelo de parceria da Amazon e o modelo de verticalização do MercadoLivre redefine os pontos de investimento e os gargalos na cadeia de suprimentos de congelados e resfriados, exigindo diferentes tipos de ativos e competências.

Pulverização vs. Concentração: Dois Perfis de Demanda Logística

A estratégia da Amazon, em parceria com a Rappi, pulveriza a demanda logística. Ela não exige um único armazém refrigerado massivo, mas sim uma rede capilar de pequenos pontos de consolidação refrigerados, como dark stores ou micro-hubs, distribuídos estrategicamente em centros urbanos. Adicionalmente, requer uma frota de última milha ágil, composta por veículos menores e adaptados para entregas de baixo volume e alta frequência. Para os operadores logísticos (3PLs), isso se traduz em uma oportunidade de fechar contratos menores em volume, mas em maior número e com maior complexidade geográfica e operacional. A chave para atender a essa demanda é a flexibilidade e a capacidade de operar em ambientes urbanos densos.

Em contrapartida, o modelo do MercadoLivre com o Assaí concentra a demanda em grandes centros de fulfillment. A necessidade aqui é de investimento em câmaras frias de grande porte, com alta capacidade de armazenamento e docas climatizadas. Essas estruturas devem ser integradas a sistemas de gerenciamento de armazém (WMS) sofisticados, capazes de lidar com o picking de produtos congelados em escala, controlar datas de validade e gerenciar diferentes zonas de temperatura de forma eficiente. Para os operadores logísticos, a oportunidade está em contratos de longo prazo para operar essas estruturas massivas. No entanto, a barreira de entrada, tanto em termos de capital necessário para a construção quanto de tecnologia para a operação, é significativamente maior.

Apesar das diferenças táticas, ambos os modelos convergem para um ponto comum e inegável: a necessidade de expandir e modernizar a infraestrutura de frio em toda a América Latina. Seja através de múltiplos pontos urbanos ou de grandes centros centralizados, a capacidade instalada de armazenagem e transporte refrigerado precisará crescer para suportar a digitalização do setor de supermercados. Essa conclusão valida a projeção de crescimento de 6,8% ao ano para o setor de equipamentos e construção de frio, mostrando que, independentemente de quem vencer a disputa pelo consumidor, a indústria da cadeia de frio será um dos principais beneficiários.