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Marca Própria na AL: Colômbia Lidera com 17%, Canais Chave no Brasil Inexplorados

A penetração de marcas próprias na América Latina permanece baixa, com 2,3% das vendas totais, mas dados por país e canal revelam um cenário desigual com oportunidades significativas, especialmente no atacarejo brasileiro, onde a presença é limitada.

J
Juliana Costa
Editor

Por que a média de 2,3% é uma métrica enganosa para o varejo latino-americano?

A análise superficial do mercado de marcas próprias na América Latina aponta para uma participação de 2,3% nas vendas totais do varejo. Este número, embora factualmente correto, oferece uma visão distorcida e excessivamente pessimista da real dinâmica do setor. A agregação de todos os segmentos de varejo, incluindo categorias onde a marca própria tem pouca ou nenhuma presença, dilui o desempenho robusto observado em áreas cruciais para distribuidores e supermercadistas. A métrica verdadeiramente relevante para a tomada de decisão estratégica emerge ao isolar os produtos de consumo massivo (FMCG).

Neste universo específico, a penetração da marca própria salta para aproximadamente 10%. Esta cifra, mais de quatro vezes superior à média geral, indica que a aceitação do consumidor já atingiu um nível significativo em categorias de alimentos, bebidas, higiene e limpeza. A discrepância entre 2,3% e 10% não é apenas estatística; ela redefine a percepção do mercado. Em vez de um setor incipiente, os dados revelam um segmento estabelecido, com consumidores que já incorporaram ativamente estes produtos em suas compras rotineiras.

Onde está a verdadeira oportunidade: Isolando os bens de consumo

A baixa média geral é influenciada por categorias de alto valor e baixa frequência, como eletrônicos ou bens duráveis, onde a força da marca do fabricante permanece como principal vetor de compra. Para os operadores do varejo alimentar e da distribuição, ignorar a penetração de 10% em seu setor de atuação é um erro estratégico. Este número reflete o potencial real e a base sobre a qual novas estratégias de expansão de portfólio podem ser construídas. Ele sinaliza que a barreira inicial da desconfiança do consumidor já foi superada em grande parte da região, e o foco agora deve ser em qualificação, segmentação e inovação dentro do portfólio de marcas próprias.

A análise correta, portanto, exige um recorte setorial. Para um gestor de categoria de um supermercado ou para um distribuidor de alimentos congelados, o mercado de marca própria não é de 2,3%, mas sim um mercado de 10% com líderes regionais que já ultrapassam os 15%. Esta perspectiva altera fundamentalmente o cálculo de risco e o potencial de retorno sobre o investimento em desenvolvimento de novas linhas de produtos.

Colômbia a 17%: O que o benchmark regional ensina sobre maturidade de mercado?

A heterogeneidade do mercado latino-americano fica evidente ao se analisar o desempenho por país. Longe da média regional, alguns mercados demonstram um nível de desenvolvimento consideravelmente mais avançado, servindo como referência para estratégias de expansão em outras nações. A Colômbia se destaca como o mercado mais maduro, com uma participação que redefine as expectativas para a região.

Colômbia: Atingindo 17% de participação em supermercados

Com 17% de todas as vendas em supermercados atribuídas a linhas de produtos de marca própria, a Colômbia estabelece o benchmark regional. Este percentual não é apenas um número; ele representa um ecossistema de varejo sofisticado e um alto nível de confiança do consumidor. Atingir este patamar indica que os varejistas locais transcenderam a estratégia básica de oferecer apenas uma alternativa de baixo preço. Em vez disso, conseguiram construir portfólios segmentados, com diferentes níveis de qualidade e preço, posicionando suas marcas como concorrentes diretos e viáveis aos fabricantes tradicionais. O sucesso colombiano demonstra que a marca própria pode ser um pilar central na estratégia de fidelização e diferenciação do varejista, e não apenas uma ferramenta tática para margens.

O pelotão dos 13%: Argentina, Chile e Peru como mercados consolidados

Seguindo a Colômbia, um grupo coeso formado por Argentina, Chile e Peru apresenta uma participação de mercado consolidada em 13%. Este patamar é notável pela consistência entre três economias com contextos macroeconômicos distintos. Sugere que a adoção da marca própria é impulsionada por fatores estruturais de comportamento do consumidor, como a busca por uma melhor relação custo-benefício, que persistem independentemente de ciclos de inflação alta (Argentina) ou estabilidade econômica (Chile). Para os operadores nestes países, 13% significa que a marca própria já é uma parte integrante e esperada da cesta de compras, criando um ambiente favorável para o crescimento contínuo através da inovação em categorias ainda pouco exploradas.

México: O potencial de 8% em uma economia continental

O México, uma das maiores economias da região, registra uma participação de marcas próprias de 8%. Embora este número esteja significativamente acima da média regional de 2,3%, ele aponta para um potencial de crescimento ainda não totalmente realizado quando comparado aos mercados andinos e do Cone Sul. O valor de 8% em um mercado do tamanho do mexicano representa um volume absoluto considerável, mas a diferença percentual para os líderes sugere que há espaço para uma expansão acelerada. Fatores como a forte presença de marcas globais e uma estrutura de varejo pulverizada podem explicar parcialmente este número, mas também sinalizam uma oportunidade clara para os varejistas que decidirem investir de forma mais agressiva na construção de suas marcas.

O paradoxo do atacarejo: Por que os canais focados em preço no Brasil ainda resistem à marca própria?

Enquanto alguns mercados e canais avançam, um dos maiores motores de volume do varejo brasileiro, o atacarejo, apresenta uma notável lacuna estratégica. A presença de marcas próprias é limitada em players cruciais como Atacadão e Assaí. Este fato representa um paradoxo: o canal que mais cresce e que tem como principal proposta de valor o preço baixo — o apelo fundamental da marca própria — é justamente um dos que menos explora essa estratégia.

O canal de maior crescimento com a estratégia menos explorada

A ausência de um portfólio robusto de marcas próprias nesses gigantes do atacarejo pode ser atribuída a uma priorização do modelo de negócio original, focado em alta eficiência operacional, sortimento limitado e negociações de grande volume com fabricantes estabelecidos. A introdução de marcas próprias adiciona camadas de complexidade, como gestão de fornecedores, controle de qualidade e desenvolvimento de embalagens, que podem ser vistas como um desvio do modelo de baixo custo. No entanto, essa abordagem deixa uma oportunidade significativa na mesa, especialmente ao não atender plenamente a demanda de seus dois principais públicos: pequenos comerciantes em busca de margem e consumidores finais em busca de economia.

Uma oportunidade latente para a cadeia de distribuição

Para a cadeia de distribuição, especialmente em categorias como alimentos congelados, esta é uma informação estratégica de alto valor. A lacuna deixada por Atacadão e Assaí significa que uma vasta oportunidade de volume permanece inexplorada. A questão central para distribuidores e potenciais fabricantes de marca própria é se essa ausência é uma barreira estrutural intransponível do modelo de negócio do atacarejo ou simplesmente uma fase de mercado que está prestes a mudar. O primeiro player do setor que conseguir desenvolver e implementar uma estratégia de marca própria eficiente e escalável, sem comprometer sua estrutura de custos, poderá obter uma vantagem competitiva substancial.

O consumidor já decidiu: O que o estudo de junho de 2022 revela sobre a lealdade à marca própria?

A sustentabilidade do crescimento das marcas próprias depende diretamente da aceitação e lealdade contínua do consumidor. Um estudo realizado em junho de 2022 fornece evidências concretas de que a adoção vista nos últimos anos não foi apenas uma resposta a pressões econômicas conjunturais, mas sim uma mudança mais profunda e duradoura no hábito de consumo na América Latina. A pesquisa indicou uma forte inclinação dos consumidores da região para continuar comprando produtos de marca própria mesmo após a estabilização de cenários econômicos.

De resposta à crise para hábito de consumo

Este dado é fundamental para o planejamento estratégico de varejistas e da indústria. Ele valida a tese de que o consumidor que experimentou marcas próprias durante períodos de orçamento apertado descobriu uma proposta de valor — qualidade percebida a um preço competitivo — que pretende manter em suas compras futuras. A percepção de que esses produtos são apenas "alternativas baratas" ou de qualidade inferior está sendo sistematicamente substituída pela visão de que oferecem uma compra inteligente. Para os gestores de categoria e compradores de redes, essa consolidação do hábito de consumo justifica investimentos na expansão e, crucialmente, na qualificação do sortimento de marcas próprias, solidificando sua posição no carrinho de compras como uma escolha, e não apenas como uma necessidade.

Novos campos de batalha: A ascensão da conveniência e a granularidade dos dados de mercado

O futuro das marcas próprias na América Latina será influenciado não apenas pelo comportamento do consumidor, mas também pela evolução dos formatos de varejo e pela crescente sofisticação no uso de dados para identificar oportunidades. O avanço de canais específicos, como as lojas de conveniência, e a disponibilidade de análises de mercado detalhadas estão abrindo novas frentes para o desenvolvimento de produtos.

A expansão da OXXO e o desafio do formato conveniência

O crescimento acelerado das lojas de conveniência, um movimento liderado pela expansão da rede OXXO, abre um campo fértil para a introdução de marcas próprias. Este canal possui características únicas: foco em compra por impulso, reposição e consumo imediato. Para ter sucesso aqui, as marcas próprias precisam ser adaptadas, com embalagens menores, formatos de dose única e um portfólio focado em categorias de alta rotatividade. A escala de uma rede como a OXXO oferece o volume necessário para justificar o desenvolvimento de produtos exclusivos para este formato, criando uma nova avenida de crescimento para além dos supermercados e hipermercados tradicionais.

A inteligência de mercado por trás da próxima onda de produtos

A tomada de decisão estratégica está cada vez mais embasada em dados granulares. Relatórios de mercado, como o da Euromonitor sobre alimentos embalados, fornecem um roteiro para a inovação em marca própria. A cobertura de produtos deste relatório específico, que inclui categorias como Confeitaria, Sorvetes, Snacks Salgados, Biscoitos Doces, Barras de Snacks e Snacks de Frutas, mostra exatamente onde os analistas identificam o maior potencial. São categorias de alta frequência e forte apelo emocional, onde uma marca própria de boa qualidade e preço justo pode capturar uma fatia significativa do mercado. A capacidade de analisar esses dados, fornecidos por organizações com alcance global — a Euromonitor, por exemplo, atua há mais de 50 anos, com 16 escritórios, cobrindo mais de 210 mercados nacionais e atendendo clientes em 110 países — permite que varejistas e distribuidores façam apostas mais informadas, direcionando investimentos para as categorias com maior probabilidade de retorno e aceitação pelo consumidor.